Entrevistas? Só depois do discurso da rainha

Contato um setor do governo inglês pedindo uma entrevista. Eles retornam a ligação:

– “Sim, claro, podemos te ajudar. Mas precisamos esperar”, eles informam.

– “Esperar o que?”

– “O discurso da rainha”.

Pois é. Depois das eleições, a rainha vai na Casa dos Lordes e dá às boas vindas ao novo Parlamento. E só então os órgãos públicos podem fazer anúncios, o que inclui dar entrevistas.

A tal boas vindas acontece assim: a rainha sai lá de Buckingham Palace numa procissão até Westminster, onde fica a sede do Parlamento. Há todo um código de vestimenta: ela usa a coroa do estado imperial e o robe do Estado.

Ela faz um trajeto rígido, passando por salas específicas. Quando chega na câmara da Casa dos Lordes, o oficial da Casa vai então chamar os Comuns – ou seja, os políticos eleitos pelo povo -mas os Comuns fecham a porta na cara do oficial!

Soa dramático, mas é tudo coreografia. A porta na cara é reminiscente da Guerra Civil inglesa, no século XVII, e simboliza a independência do Parlamento, eleito pelo povo, da monarquia.

O fato é que eu precisarei esperar até o fim de maio, quando a rainha terá feito seu discurso – que, na verdade, é escrito pelo governo -, para ter a entrevista que preciso do tal órgão do governo inglês.

Eu ficaria chocada, não fosse o fato de, na minha última prova de jornalismo, haver uma seção inteira sobre que perguntas eu faria para a duquesa Kate… numa entrevista sobre a princesa recém-nascida.

7 coisas que aprendi com os ingleses

Quando a gente muda de país geralmente pensa na atividade que vai fazer lá – trabalhar, estudar, fazer um curso de inglês, turistar.

Poucas vezes pensamos nos desafios que vamos encontrar e nos perrengues que estão por vir.

Quando vim fazer meu mestrado, estava ansiosa pelas aulas e pelas ferramentas que iria aprender. Não imaginava as lições que eu tomaria do cotidiano, da relação com as pessoas e de ver como os ingleses tocam a própria vida.

Seis meses depois de chegar à Inglaterra, posso dizer que passei uns bons perrengues. E, claro, aprendi muito. Aprendi sobre mim, sobre meu país e sobre o mundo.

Desde a pouca tolerância a qualquer reclamação à pouca indulgência dos ingleses, são essas as lições que, por enquanto, absorvi:

1. Dedique-se continuamente a algo útil

Todos os dias os ingleses estão fazendo alguma coisa de útil. De domingo a domingo, na sobriedade ou na ressaca, de manhã e de noite, sempre é hora. Se não tem uma atividade para fazer do mestrado (e olha que sempre tem), os ingleses estão desenvolvendo um jogo interativo, um post no próprio blog, testando um software novo, aprendendo uma ferramenta digital nova… Há uma questão cultural que os compele a serem produtivos, sempre. É verdade que esse ambiente de extrema produtividade te deixa se sentindo um inútil no começo mas, depois, ele cria um efeito muito positivo. Você aprende que simplesmente tem muito a aprender e que não pode desperdiçar tempo algum.

2. Competitividade é bom

Estar à frente é algo que todo inglês preza muito. Qualquer competição vira algo seríssimo, até mesmo um pub quiz. No começo, o nível de competitividade dos colegas do mestrado causava mal-estar físico. Achava aquilo doentio e que eu nunca me adequaria. Mas, por outro lado, esse espírito de competitividade acaba sendo bom: você não quer ser o único que não tirou nota boa, o único que não arranjou trabalho, o único que não recebeu uma menção honrosa. A competitividade, aprendi, impulsiona as pessoas a se superarem.

3. Fim de semana não é descanso

Antes de vir para cá eu tinha a cândida ideia do “fim de semana sagrado”. Mas, aqui, aquela lógica de que se você trabalhou a semana toda tem direito a descansar, é algo inexistente. Abrir mão disso, aliás, foi bem difícil. Via a tarde de sábado indo embora, enquanto eu passava incontáveis horas nas atividades do mestrado, e achava isso um desperdício de vida. Agora, contudo, posso dizer que aprecio trabalhar de forma contínua. O bom é que, dentro dessa lógica, uma tarde livre tem um valor enorme. Um valor diferente de quando eu tinha várias tardes livres.

4. Os ingleses são muito diretos, só que não

Decifrar a verdade por trás de todos os artfiícios de linguagem de um inglês é tarefa laboriosa. Eles darão muitas voltas para dizer o que querem e nunca dirão o que pensam. Vão dizer que gostaram muito daquilo que você fez quando, na verdade, detestaram. Vão dizer que estava tudo bom quando estava tudo péssimo. Mas, com o tempo, você aprende a quebrar a polidez inglesa, e, aí, encontrará toda a acidez real escondida entre os “lovely” e “wonderful” que eles enfiam em todas as frases.

5. Toda economia vale a pena

O brasileiro, em sua maioria, tem medo de soar pobre e, por isso, acha que economia pequena é “ninharia”. Aqui vejo os estudantes deixarem a cantina da faculdade e irem ao supermercado para economizar 0,50 de libra. Vejo alunos com marmitas todos os dias, e vejo ainda os que levam a marmita para o pub para não gastarem com comida (o dinheiro é sempre reservado para o pint). Aqui, toda economia é importante. E não é porque esses estudantes não têm dinheiro – são todos filhos de classe média, fazendo algo de luxo, que é um mestrado, e um mestrado caro. A questão é de princípio. Não se gasta com o que não é necessário.

6. Solidariedade tem um significado diferente

Eles são pouco solidários no dia a dia. Não se divide comida, espaço, bebida, anotações, nada. Tem festa na casa de fulano e cada um leva a sua bebida. E ai de quem beber a bebida alheia! A regra subjacente é: cada um faz o seu e assim todos fazem o que precisa ser feito. Apesar do pouco espírito solidário, há centenas de voluntários e ONGs espalhadas pelo país. Para os desavisados isso pode soar como solidariedade. Eu tenho um outro palpite: é o grande senso de responsabilidade social dos ingleses, e não a generosidade, a explicação para tal fenômeno. É engraçado que no Brasil temos o oposto. Muita caridade, pouco senso do coletivo.

7. Reclamar é proibido

Nós, brasileiros, adoramos reclamar. E eu, claro, não fujo à regra. Aqui, contudo, aprendi logo cedo que fazer drama é tipo proibido. Esboce uma reclamação e alguém vai logo fazer o contraponto. O “always look on the bright side of life” é mesmo uma filosofia. E não é porque eles são pessoas super otimistas. Na verdade, eles são muito práticos. Qualquer reclamação é vista como uma fuga à realidade, uma fraqueza, uma falha do reclamador. No começo era muito angustiante não poder reclamar de tu-do o que que eu queria. Mas, depois, esse exercício me mostrou como a vida é melhor quando você não reclama. Reclamar é um vício e só percebemos isso quando mudamos de atitude.

Uma tarde com jornais, jornalistas e… uma atriz

Uma coisa interessante da City University é sua proximidade com a indústria de jornalismo. E uma coisa interessante da indústria daqui é que os jornalistas têm tempo e paciência de ir à faculdade conversar com alunos.

No penúltima semana de janeiro, a festa acabou e nossas aulas voltaram. Começamos o ano com três dias intensivos de apresentações, debates e brainstorming sobre inovação em jornalismo, que é o nome de um dos módulos deste termo acadêmico.

Tivemos painéis com Buzzfeed, The Telegraph, Sky News, BBC 1, The Times, entre outros.

A mesa mais interessante foi a que reuniu os times de gráficos interativos do Wall Street Journal, do laboratório de notícias da BBC e da editoria de projetos especiais do The Guardian.

James Ball, em pé, dá um choque de realidade nos estudantes

James Ball (em pé), fala aos alunos da City

Nessa leva, estava James Ball, do The Guardian. Ball é um repórter de 29 anos que foi recrutado por Julian Assange para lidar o vazamento dos milhares de arquivos do Wikileaks e que, no Guardian, esteve por trás da grande história de 2014, as denúncias de Snowden. Ele se formou na City em 2008 e hoje é editor de projetos especiais do Guardian.

Sua apresentação funcionou como um chacoalhão na platéia. Aqui, como no Brasil, há muitos querendo entrar no jornalismo, alguns mais pelo glamour que a indústria ainda carrega que pela natureza da atividade.

Também aqui há muitos que sonham com a estabilidade num segmento cada vez mais fragilizado, e não consideram quais habilidades precisam desenvolver para permanecerem relevantes no jornalismo.

Ball falou sobre a necessidade de trabalho em equipe, da necessidade de aprender softwares que te ajudam a lidar com dados, da importância de pensar sua audiência, da necessidade de ser digital, mesmo com todo o amor que se possa ter ao papel.

Em 15 minutos, o repórter nos deu frio na barriga, mas também coragem para seguir viagem.

O seminário continuou tarde adentro e terminou na sexta. No último dia, já um pouco cansados e todos muito preocupados com o exame de direito de mídia que nos esperava na segunda, recebemos a visita de uma… atriz.

Ela nos fez pular, fazer caretas até a cara doer, cantar canções de ninar gritando e mais uma série de coisas esdrúxulas, tudo para que aprendêssemos a soltar a voz e a descontrair em público.

No final de março, iremos apresentar para pessoas da indústria uma solução jornalística, na qual estamos trabalhando.

Nossa ideia, ainda em evolução, é um aplicativo para notícias em áudio, nos moldes do app Clippet News, mas com alta carga de personalização: por exemplo, o aplicativo poderá sugerir notícias de acordo com a localização ou ainda de acordo com a agenda de compromissos do usuário.

As dicas da atriz deverão servir para que não tenhamos uma crise histérica antes da apresentação e que, ao contrário, soltemos a voz e a respiração.

Agora só nos falta trabalhar no projeto para que, quando falarmos da nossa solução para os figurões dos jornais ingleses, estejamos confiantes no que criamos.

Um padre tipo ateu na noite de Natal

Era noite de Natal e eu resolvi tentar algo que nunca havia feito na data Natalina: fui numa missa.

Havia lido sobre o coral da St Martin-in-the-Fields, uma igreja na Trafalgar Square. O show, especial para a ocasião, seria acompanhado pelo órgão da igreja e aquilo me soou um ótimo programa.

Interior da igreja. (Foto: Brett Jordan - Creative Commons)

Interior da St Martin-in-the-Fields, na Trafalgar Square. (Foto: Brett Jordan – Creative Commons)

Cheguei e fui recepcionada por pessoas simpaticíssimas, que me entregaram um folheto com as leituras daquela noite. Achei ótimo. Lembro que quando era criança rezava com antecedência para que me dessem o folheto nas missas de domingo. Era minha única escapatória para o tédio que se abatia sobre mim durante as longas leituras entoadas com voz monótona pelo padre da paróquia local.

As músicas eram poéticas e as vozes angelicais do coro pareciam de fato elevar meu espirito a um lugar mais calmo e mais bonito. Tinha uma coisa meio Monty Python nas letras, mas ainda assim era bonito.

Tudo estava na perfeita ordem. E então o padre subiu ao púlpito.

“Hoje eu irei contar duas histórias”, começou o padre.

Sua primeira parábola era sobre a criação do Universo. Qual não é a minha surpresa ao ouvi-lo pronunciar as palavras Big Bang. E aquilo era só o começo. O padre continuou, com explicações sobre a formação geológica da Terra, sua evolução durante milhares de anos, a formação de microorganismos, a evolução das espécies, a chegada do homem.

Nada de Adão e Eva, moldes de barro, sopro de Deus.

Eu só podia estar mesmo na terra de Darwin, pensei. Até os padres aqui são evolucionistas!

Sua segunda história era mais mundana. A corrida pelos presentes de Natal, as rixas do trabalho, o medo de não ser bem-sucedido, a angustia das ambições não conquistadas.

Os dois opostos, céu e Terra, cosmos e humano, haviam sido apresentados. Aquilo começava a fazer sentido.

Seu ponto era que o Natal marcava o momento em que esses dois universos, cósmico e terreno, haviam se encontrado. O Natal era a celebração do homem vislumbrando o divino e do divino se apresentando ao homem. E isso era motivo de celebração.

Fiquei esperando ele pronunciar as palavras “Jesus”, “Filho de Deus”, “manjedoura”. Nada disso. Era a primeira vez na vida que eu ficava vidrada no sermão de um padre. Aquilo soava filosófico, poético, complexo, mas jamais entediante.

No fim, queria levantar e aplaudir, mas vi que não era esse o código de conduta, e só fiquei achando aquela noite sensacional.

Agradecida, paguei o dízimo.

Outubro, esse mês das bruxas, que assombrou todo mundo

Outubro foi um mês difícil.

Foi uma maratona de trabalhos (aqui conhecidos como assignments), permeada pela sensação de que não seria possível dar conta. O mês passou e, ao contrário do que pressentíamos, tudo deu certo.

Agora chegou novembro e o mar de prazos (conhecidos como deadlines) se acentuou. A sensação de que não vai dar tempo é uma constante. Mas essa é só uma impressão. No fim, sabemos, tudo vai dar certo. O problema é que, no meio da bagunça, a gente se esquece disso. O exercício é sempre se lembrar que estamos no caminho certo.

Os últimos dois meses foram marcados por uma série de assignments:

O mais difícil deles é o que se chama “patch“. No começo do curso, cada aluno foi incumbido de cobrir um bairro, aqui chamado de ‘wards‘. Esses ‘wards’ fazem parte de uma região administrativa maior, chamada ‘boroughs‘. Cada ward tem seus councillors, algo como vereadores, além de seu centro comunitário e de políticas públicas próprias.

Meu ward é Canonbury, um bairro de 12 mil habitantes, com um centro comunitário e três vereadores.

Aqui, “meus” councillors:

Aqui, pinturas antigas que retratam Canonbury:

Pois bem: nosso trabalho é perambular pelo nosso ward e produzir reportagens. Até o começo de dezembro, devemos produzir oito matérias e sugerir outras doze.

É aqui que começa o desespero: assessorias de imprensa estão cansadas dos alunos solicitando entrevistas, councillors ignoram os pedidos e os deadlines se acumulam assim como as negativas das fontes oficiais.

Somado a isso há a falta de tempo: como alunos em tempo integral, temos que descolar entrevistas no final da tarde e participar de reuniões comunitárias à noite. Nos fins de semana, é hora de escrever o que foi apurado e fazer as pesquisas para as reportagens da semana seguinte. É uma ginástica.

Na semana passada, chegou meu feedback: a professora mais inspiradora desse curso me disse que “era visível que eu havia colocado considerável esforço no trabalho” feito até então. Naquele dia, eu andava saltitando pela rua.

A sensação foi parecida com a de quando um dos meus councillors respondeu ao meu pedido de entrevista. Eu abraçava meus colegas de classe e sentia que tudo estava na mais perfeita paz.

A questão é: o patch é só um dos trabalhos que temos que fazer.

Somado a ele, temos outros dois projetos práticos, para os quais também temos que fazer entrevistas e produzir reportagens semanais.

Aqui minha agenda para esta semana com algumas das atividades e deadlines que preciso cumprir

Minha agenda para esta semana com algumas das atividades e deadlines que preciso cumprir

Um deles, para a disciplina Jornalismo Online, é um projeto muito legal que meu grupo e eu criamos: Project Ada, para falar de mulheres em tecnologia. O legal é que não é um clube da Luluzinha: somos em duas meninas e dois garotos.

Meu primeiro artigo é uma entrevista que fiz com uma desenvolvedora. Pedi a ela dicas sobre como começar a aprender programação e codificação.

Há ainda nosso blog pessoal, que entra na avaliação final. Até nossa evolução em número de seguidores no Twitter é analisada.

(Para quem não conhece, meu blog profissional aqui é o ahackinlondon.wordpress.com. Sejam bem-vindos nele também.)

No fim da lista de atividades, há a tentativa de nos dedicarmos ao que de fato gostamos.

Eu prometo todas as semanas que irei treinar em casa com os softwares de jornalismo de dados que viemos testando nas últimas semanas, mas o fato é que não consegui me dedicar a isso ainda.

Mesmo sem os treinamentos, ainda assim já vejo pequenas evoluções nas minhas habilidades:

  • Não surto mais quando vejo uma tabela de Excel cheia de números. Aliás, minhas recém-adquiridas habilidades em análise de dados têm sido crucial para a produção de reportagens para meu “patch”. O que já analisei de estatísticas de dados criminais não está escrito!
  • Tenho modelado minha mente para pensar em dados visualizados. Isso, que era impossível para mim, começa a ficar mais claro, e produzir gráficos não é mais algo do outro mundo.

No meio de tudo, tem a mente bandida, que é, no fim das contas, o inimigo: os receios, as preocupacões, o exercício constante de aceitar que aqui sei de muito pouco. Às vezes, há ainda uma dúvida grande se o esforço está sendo suficiente.

Temos mais três semanas para finalizar nosso patch. Às vezes, parece que é impossível darmos conta. Mas daí me lembro das palavras da minha tutora, que disse ver “considerável diligência” no trabalho que eu produzi até o momento.

Diligência é uma das sete virtudes divinas, que se opõem aos sete pecados capitais. Significa persistência, esforço, ética e retitude.

Quando me sinto pressionada pela enorme quantidade de tarefas, tento pensar nessa palavra. Imagino que, se eu a seguir, como uma bússola, tudo vai dar certo.

Um pé no Parlamento, outro no tribunal: os aprendizados de um curso extremamente prático

Em outubro, tivemos duas experiências muito interessantes no mestrado: fomos à Casa dos Comuns, no Parlamento, para um seminário sobre entrevistas com políticos, e reportamos sobre um julgamento, que assistimos ao vivo num tribunal em Westminster.

Uma das primeiras salas de Westminster: paredes de pedra, esculturas, pinturas, vitrais, lustres imperiais. Que parlamento deslumbrante!

Uma das primeiras salas de Westminster: paredes de pedra, esculturas, pinturas, vitrais, lustres imperiais. Que parlamento deslumbrante!

Vestidos de maneira elegante, fomos ao Parlamento para uma atividade prática: três alunos entrevistaram uma Member of Parliament (algo como uma deputada), conhecido aqui como MP.

Meg Hillier, a MP, fez um mestrado em Jornalismo na City há alguns anos e recebeu os alunos em uma sala cheia de quadros e vitrais, com vista para o Tâmisa, para a sessão de perguntas e respostas.

Eu, Alice e Clara olhando para o Big Ben na saída de Westminster

Eu, Alice e Clara olhando para o Big Ben na saída de Westminster

A visita ao Parlamento faz parte de uma atividade muito interessante que temos aqui dentro do módulo Prática Jornalística. Toda semana três estudantes são sorteados para entrevistar uma autoridade local, que vem até a universidade: councillors (algo como vereadores), diretores da polícia, etc.

E isso é muito interessante: toda semana uma autoridade se abala até a universidade e se coloca à disposição de jovens estudantes de jornalismo. As entrevistas são feitas com base em temas elencados pelo professor da disciplina dias antes, duram 15 minutos e são realizadas em frente de toda a sala.

Uma coisa curiosa é o que se segue após a sessão de perguntas e respostas: o entrevistado dá um feedback sobre o entrevistador. Revela quais foram as perguntas mais difíceis, onde o entrevistado poderia ter forçado mais para receber mais informação, onde falhou.

As análises são honestíssimas. Houve alunos que exageraram na dose de agressividade com o entrevistado e o feedback foi devastador. Tudo isso com platéia.

Outra experiência interessante foi a visita a um tribunal, o Westminster Coroner’s Court, dedicado a causas civis. Chegamos lá por volta das 9h, numa manhã de sol, e quase não acreditamos quando vimos a portinhola do tribunal.

“É aqui mesmo?”, nos perguntávamos.

Westminster Coroner’s Court

Os 25 estudantes precisaram ser apinhados no pequeno local, que tinha espaço para não mais que 50 pessoas.

O caso era triste: uma jovem viúva movia ação contra o serviço de ambulância, que demorou 30 minutos para atender a um chamado de urgência.

Aqui, pasmem, as ambulância são dispachadas depois que um questionário dentro de um software é preenchido. De acordo com as respostas, o software é que decide se o caso é emergência ou não. Neste caso, o software ficou variando entre “emergência” e “não emergência”, devido ao conteúdo das respostas.

O fato é que o ex-marido teve um pseudo-aneurisma, devido a complicações de um transplante de rim e de pâncreas que havia feito dois meses antes, e faleceu.

O julgamento foi um desafio para meu vocabulário: teve o depoimento da família, de médicos cirurgiões, de motoristas de ambulância e outros mais.

Também foi triste porque o caso tinha forte carga emocional.

Mas, principalmente, foi enriquecedor ver o incrível trabalho de um juiz, fazendo as perguntas certas para chegar a respostas objetivas. Era como ver um jogo de “Detetive” sendo jogado na minha frente, ao vivo, e de verdade.

As reportagens que tivemos que produzir sobre a visita ao Parlamento e ao tribunal até o momento foram uma espécie de teste e não fomos avaliados por elas.

Neste mês, faremos uma nova rodada de visitas e, desta vez, teremos as reportagens avaliadas.

Amanhã, iremos ao Parlamento novamente. Três estudantes irão entrevistar Emily Thornberry, uma MP do Partido Trabalhista.

Já estou preparando bloquinho, caneta e pensando no figurino. We must dress smartly.

BigBen

Big Ben: a clássica torre que abriga o Big Ben no Palácio de Westminster, onde ficam as Casas do Parlamento

Uma breve explicação sobre jornalismo de dados e comunidades online

O meu mestrado tem dois focos técnicos: jornalismo de dados e gestão de comunidades online (em inglês, data journalism e online community management).

Aqui vai uma explicação muito breve e simplificada do que são esses dois temas (mãe, essa é sua chance de finalmente entender o que eu vim estudar aqui!😀 ).

Em jornalismo de dados iremos aprender sobre ferramentas para aquisição, estruturação e apresentação de dados.

O crescimento dessa área dentro do jornalismo vem da ideia de que, em cenários cada vez mais complexos, de alta digitalização e de excesso de informações, não basta somente entrevistar pessoas: é preciso saber ler e interpretar grandes quantidades de informações.

Isso pode significar, por exemplo, analisar estatísticas e cruzar diferentes tipos de informação para se chegar a uma afirmação. É possível que também seja necessário estruturar dados que estejam “bagunçados” – quanto mais sensível a informação, maior a probabilidade dela estar escondida ou disponível de maneira incompreensível.

Ao fim, ao “encontrar” a notícia dentro dos dados, há a apresentação disso: pode ser por gráficos interativos, mapas responsivos, entre outros. Cada etapa desse processo demanda aplicativos e softwares específicos e aprenderei alguns deles aqui.

Jornalismo de dados tem uma forte interseção com design e estatísticas. Aliás, já discute-se a divisão dele em categorias, como reportagem assistida por computador, em que o foco é na captura e análise de grandes bases de dados, gráficos interativos e visualização de dados.

Abaixo há um vídeo muito interessante que assistimos em nossa primeira aula de data journalism na semana passada, sobre visualização de dados em um espaço físico real. O estatístico analisou a evolução da renda e da expectativa de vida em 200  países nos últimos 200 anos e produziu essa visualização magistral:


Comunidades online

Em gestão de comunidades, iremos entrar na área de redes sociais: como construir relacionamentos dentro de social media, como gerenciar o “capital social” dentro desse ambiente, como desenvolver e alimentar comunidades online, como dialogar com uma audiencia.

Tambem iremos aprender sobre o que eles chamam de ‘sourcing online’, ou seja: encontrar potenciais histórias [aqui é forte o “jornalismo cidadão”, que tem a colaboração dos leitores] mas, principalmente, verificar o quão verdadeiras são as colaborações.

Pessoas mandando vídeos e fotos de protestos de Hong Kong, por exemplo: é possível confiar? Como se certificar da veracidade disso?

Há formas e iremos aprender sobre elas.