Cala a boca, Ana!

Um programa de intercâmbio serve para muitas coisas. Serve para aprender outra língua, mas também se presta a objetivos mais complexos, se você assim o quiser.

Pode ser o ponto de partida para uma renovação pessoal, deixar vícios físicos e emocionais de lado e para se tornar, quem sabe, um ser humano melhor.

Imbuída desses sentimentos, tenho tido grande satisfação com meu desempenho humano aqui. Gosto de me saber tolerante, solidária, disposta a auxiliar os outros, a ser paciente. Até conhecer Ana.

Ana chegou na última segunda-feira (14). Ela é professora de latim, veio da Sicília, Itália, para ficar um mês na ICS English e melhorar o inglês.

Mas a nova estudante tem alguns defeitos. O pior deles é sua incapacidade de ouvir. Ela chegou na segunda, começou os estudos na terça e, na quarta-feira, estava em choque, porque não conseguia entender os ingleses. Tendo percebido sua inabilidade com os ouvidos, tratei de lhe dar um toque: “Ana, não é falando que se aprende inglês, mas sim, ouvindo. Se você não ouvir, não irá aprender”. Mas Ana não escuta. Ana fala.

Seu método de estudo é muito peculiar: ela tem que repetir sempre a última frase do professor e não entende o significado de “compreensão genérica” de um assunto. Se desconhece um modesto substantivo, interrompe a aula dramaticamente. Se não compreende uma frase, revolta-se: “mas eu não entendi!” Se for um verbo, então, socorro!!! Ana pede, para cada verbo não compreendido, a conjugação completa deste, o spelling (como se escreve – o que resulta no professor soletrando a palavra) e ainda a grafia fonética da pronúncia. Lembre-se: a cada verbo não compreendido.

Caso entenda a resposta para a sua dúvida, Ana precisa demonstrar o quanto compreendeu: para isso, necessita dar, pelo menos, três exemplos, o que resulta em três frases distintas. Para demonstrar que transita bem pelos tempos verbais, não raramente Ana dá um exemplo em cada tempo verbal. Como ela não transita bem pelos tempos verbais, empaca em cada conjugação, pede sempre o past simple de um verbo, o past participle de outro.

Para um leitor inocente, Ana pode parecer apenas uma aluna aplicada. Ressalto com todas as minhas forças que ela não é. Quando a estudante faz suas perguntas (geralmente depois do professor ter acabado de explicar para outro aluno dúvida semelhante), me sinto num dos episódios do seriado mexicano Chávez.

Na última semana, achei que fosse morrer se não calasse Ana com minhas próprias mãos.

Além de sua verborragia na tentativa insana de aprender inglês, ainda tem o lado social da italiana. Ela é daquelas que nunca respeita o seu espaço na mesa. Se quer falar com quem está do seu lado, debruça-se sobre você, te empurra, bate a mão no teu copo.

No seu segundo dia aqui e em sua primeira saída com os estudantes ao pub, Ana travou o pequeno diálogo abaixo com Ingrid:

– Eu não fiz minha tarefa.

Ingrid responde: – Não se preocupe. Amanhã, você faz em sala.

– Você fez a sua?

– Sim.

– Eu posso copiar?

(Silêncio constrangedor).

– Claro, diz Ingrid dando de ombros.

– Mas, você tem certeza de que você fez certo seus exercícios? É porque, se tiver erros na sua tarefa, eu não quero, explica a nova estudante.

Ana é a representação máxima da falta de bom-senso. Em dois dias, ela conseguiu um feito extraordinário: ganhar a antipatia de toda uma escola.

Mas, daí, veio o peso na consciência e fiquei com pena dela. Comecei a ouvir a voz imaginária da minha mãe: “Credo, minha filha, não faça esse tipo de coisa com a menina. Você não gostaria que todo mundo ficasse te evitando, falando de você por aí”.

Imaginei-me na situação dela, em como me sentiria caso, na minha primeira semana de aula, todos me olhassem com irritação, sem simpatia. Senti-me culpada por estar, talvez, atrapalhando o desempenho de Ana em seu programa de intercâmbio, ao tentar fazê-la calar a boca durante as aulas, ao reprimi-la com olhares de profunda antipatia, ao deixar-me alimentar-me de minha irritação. Afinal, ela é só uma estudante buscando o mesmo que todos nós: aprender inglês!

Foi então que eu tentei dar uma chance a ela e a mim: marcamos de ir assistir ao jogo da Inglaterra na última sexta-feira (18), mas todo mundo fez questão de excluí-la. Eu, imbuída dos melhores sentimentos, a convidei pessoalmente.

Mas, não funcionou. No final do encontro, tive que pedir desculpas aos colegas. Ana é daquelas falantes que, quando não tem ninguém com quem falar, se sente miserável, não exercendo sua função social num grupo. Por isso, ela praticamente “atacou” os presentes: Sabrina, Hussam, Sallem, Tatiana foram os maiores vitimados de sua fúria por dez minutos de monólogo.

Passado o final de semana, recomeçaram as aulas. De novo, a classe virou aquela bagunça, com Ana fazendo as perguntas mais estúpidas: o que é ridiculous (em português, ridículo) sendo que, em italiano, é ridicolo. O que é alcohol, sendo que, em italiano, a grafia é alcool, como no português. E por aí vai.

Sinto que falhei na minha missão. Desisti por inteiro de tentar aceitar Ana como Ana é. Ignorei a voz da minha mama me dizendo que devo ser mais tolerante (se ela comentar esse post, vocês vão ver ela me dando um puxão de orelhas, rs).

Mas, Ana é mais que uma aluna irritante buscando aprender inglês de maneira insana. Ana é a exacerbação da falta de bem-senso, da incapacidade de ouvir, da incapacidade de observar.

Ana, em outras palavras, é aquela coleguinha de sala que todo mundo quis afogar no banheiro um dia, mas que teve que suportar por respeito à diversidade.

10 pensamentos sobre “Cala a boca, Ana!

  1. .rs. Eu morri de rir, ainda tive que ler pedaços do texto para meus colegas de trabalho.rs

    Mesmo falando “mal” de alguém você consegue ser engraçada.rs

    Ah Keilinha, coitada da Ana.rs.rs.rs.rs Amiga, você não é assim, você sempre consegue dar um jeitinho.rs.rs.rs

    Bom, espero que este mês passe rápido para você.rs.rs.rs

    Beijoss

    Saudade!

    Polly

  2. Oi Keila!!!
    seus textos são muito divertidos… depois daquele do high school, esse foi outro em que ri bastante…
    confesso que, assim como a Poliana, senti dó da Ana, mas ainda mais dó dos colegas da Ana, que também estão querendo aprender…kkkk
    boa sorte com sua nova colega e que seu intercambio seja cada vez mais gratificante!
    a cada post fico com mais vontade de me aventurar por ai tbm…
    saudades
    bjo

  3. Não poderia haver imagem que representasse melhor a sua situação do que essa do Homer esganando o Bart. Classic!

    Mas, sério, amiga… Sei bem como é esse sentimento de birra porque a pessoa é irritantemente irritante (essa ‘redundância’ se faz necessária em certos casos), mas você ainda precisa aturá-la por causa dos protocolos sociais. E o pior é que depois a gente se sente um monstro por sentir isso. Daí, quando tentamos remediar, embuídas de sentimentos de compaixão, vemos que não, não somos cruéis à toa. Tem gente que pede.

    Sabe o que fazer nessas horas? Reza, amiga. Reza porque acontece (via Irmã Selma). E peça paciência, porque se D’us te der forças, você é capaz de matar a Ana. E vamos combinar que não seria legal ter uma fotinha 3×4 no site da Interpol, né? Pq, cá entre nós, eles NUNCA pegam o nosso melhor ângulo. #ficadica

    Beijos ácidos pra você, piriquita.

  4. Keila, meu bem, a Ana não é apenas uma aluna irritante e voraz por aprender, ela é MAL EDUCADA, e isso tem que ser dito a ela COM TODAS AS LETRAS, pois a chata não vai parar.

  5. Keila!

    Então você achou que só porque cruzou com uma pessoa assim na faculdade, nunca mais iria encontrar ninguém na terra (da rainha!) com esse dom?! Baby, respeito!

    Darling: don’t worry, be happy!

    A lógica da coisa não é pensar em não fazer ao próximo o que não gostaria que fizessem para você. Sei que a vida é feita de escolhas, que a vida é dura, e que se você veio de ônibus, vai volver de ônibus.

    Talvez, o mais certo seja não fazer para você própria o que não gostaria que fizessem para você mesma! Se não se sente bem com a Ana, não precisa se martirizar por isso. Baby, alguém já disse que você é humana hoje?

    Se seus motivos são válidos para se afastar dela, em um julgamento feito a partir dos valores que você construiu em uma vida digna e com respeito como a sua, go ahead!

    Um pouco de respeito próprio, sabe?! É que somos condicionados a pensar que isso é egoismo. Não é. /donaedith É só uma questão de sobrevivência.

    Aliás, em caso de despressurização, máscaras de oxigênio cairão automaticamente do compartimento acima de sua cabeça. Coloque a máscara primeiramente em você, antes de auxiliar outras pessoas que precisam de ajuda.😉

    Beijos!

  6. uhiahiahiaha..passei mal de rir com esse post……ao contrário de muitas pessoas fiquei com dó de vc, por ter q aturar tal ser sem poder fazer o q agradaria a sua irritação…
    tenho q ser sincera q imaginei uma garotinha de uns 8 anos e não uma professora de latim!!! e nada vai me contrariar q a questão não é q ela tenha q ouvir explicações nos mííííííííííííínimos detalhes, mas q é apenas alguém q quer ser o centro das atenções (isso, claro, na minha interpretação do q vc escreveu)
    enfim, keila, quando estiver na presença dessa Ana aí, respire fundo pelo nariz e solte devagar pela boca, pense q msm isso irá acrescentar algo na sua vida e q vale a pena pelo “bem maior”
    bjs

  7. Olá minha filha! Como fiquei feliz com sua conduta de tentar ser amiga dessa moça. Conforme fui lendo o que vc escreveu e descreveu de sua comoção em relação à Ana e até mesmo de seu sentimento de culpa por olhá-la com antipatia, lembrei-me de mim mesma, que sempre era amiga das pessoas que todos rejeitavam. No meu local de trabalho, na escola, enfim, sempre tive pena dos inadequados.
    Que bom que vc tentou, mas, se isso te consola, há pessoas que não querem ser ajudadas. Infelizmente só podemos mudar a nós mesmos e, se possível, aceitar os outros como eles são, mas isso não quer dizer que devamos ser amigos íntimos deles, entendeu?
    Te amo e tenho muito orgulho de vc. Que bom que seu aprendizado aí transcende o intelecto e contempla também o humano.
    Beijos.
    Sua mama,
    Sheila.

  8. Keila , como vc consegue, em alguns post me faz chorar e em outros rir , como se estivesse em uma comedia.Agradeço todos os dias por ter amigos como vc , é por isso que nao canso de dizer , EU AMO VC !!!

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