De barriga sob o sol

Casinha para morar quando eu tiver 30 anos.

Hoje é um novo dia. Ele nasceu diferente. Não tinha percebido que, quando ele se abriu, foi de cara para o sol que ele fez. Foi se mostrando de repente, sem pretensão de ser coisa alguma, andando lentamente entre nuvens e ameaça de chuva. Esse dia de hoje é um recorte, cheio de colagens, de artesanato, feitos com uma mão que não passa a décadas por uma manicura. Foi só por lazer que esse dia se fez.

Dia desses fui mergulhando numa espiral centrípeta para dentro de uma parte cinza de mim. Foi difícil sair. Porque não havia motivos para sair.

Mas, todo dia é dia de pelo menos tentar se assombrar com uma terça-feira  modorrenta. É legal brincar de ser feliz.

Eu tenho pensado em muitas coisas. Todos os meus dias são povoados com pensamentos muito distintos. Sou um caderno de variedades perambulando pelas ruas.

Uma das coisas nas quais tenho pensado é na alegria de não se pretender. Tais pensamentos já haviam ocorrido em mim há uns quatro anos, quando eu li Matéria de Poesia, do Manuel de Barros. Esse senhorzinho lindo que vive no Pantanal e que adora falar de besouros deitados de barriga sob o sol.

Jardim. Para iluminar esse post.

E hoje eu também me deparei com a alegria da despretensão de ser coisa importante em dois momentos distintos: quando eu conheci o blog de @leandrobeguoci e o de @cnepomuceno.

O primeiro falava de polícia animalesca, violência de estado, que são aprovados de antemão pelos que acham que bandido é um terceiro gênero, aquém de mulher/homem e, portanto, não-humano. E essa de falar sem se preocupar em apontar os índices de violência, sem entrevistar o secretário de segurança do estado de SP para corroborar nada, sem fazer um “povo-fala” trouxe um sopro de liberdade para mim.

É que a gente ouve tanto na faculdade e nos manuais de jornalismo que tudo precisa ter fonte que, quando a gente pensa em algo, precisa encontrar uma que valide o que a gente pensa. Ou então, não é digno de publicidade. Olha só…

O segundo blog foi ainda mais lindo, de onde concluí que a alegria de escrever num blog é pessoal e intransferível. Na verdade, a alegria está no exercício cognitivo que a gente faz quando escreve. Onde a gente publica é só uma questão de plataforma.

E @cnepomuceno é tão tranqüilo quando trata dessa satisfação velada de se escrever sobre aquilo que está “zunindo” na cabeça! Sem uma necessidade estreita de baixar as planilhas do Ministério da Defesa e cruzar os dados antes de dizer “como a saudade aperta vez ou outra”. Sobre a historia da relevância, isso é outra coisa.

Cada leitor desse blog é um orador, como aponta Nepomuceno. É uma conversa que a gente trava. E a gente não fala com multidões, né? Se não, seria um discurso. Na sala da casa da gente, só mesmo uns poucos amigos entram. É uma questão mental, não numérica.

E, nos dias que nos libertamos da dor de acreditar que a gente vai deflagrar a terceira guerra mundial com os nossos posts, caso escreva algo errado, é como um sopro que toca nas partes coloridas dentro de nós. A gente vai se sentindo como um vitral, porque todo vitral é caminho para transpassar a luz que vem de outro lugar.

Manoel de Barros, uma vez, listou tudo o que dava pra poesia.

Não pretender ser coisa alguma serve para alegria.

9 pensamentos sobre “De barriga sob o sol

  1. Taí um texto que eu precisava ler hoje. Um texto motivador e totalmente despretencioso. “Não pretender ser coisa alguma serve para alegria”. Você me deu um mantra novo. Mesmo.

    É por isso que hoje eu não vou te elogiar, só agradecer🙂

    Beijos, miuca.

  2. Que texto lindo! Que dia lindo deve ter sido esta terça-feira. Me deu vontade de ouvir Los Hermanos, em sua fase “sem vontade de se matar”. Ouvir “O Vencedor”, para ser mais preciso:

    Eu que já não quero mais ser um vencedor, levo a vida devagar para não faltar amor.

    Beijos!

  3. Querida Keila

    tão bom saber de você tão bonita!
    um beijo – deste meu jardim caipira de São Chico Xá para esse seu jardim de princesa que nada quer –

    Mauisa

  4. Oi, Keila
    Valeu pela gentileza. Legal que você gostou do texto, do blog _e que legal que você está no Reino Unido na melhor parte do ano.
    Depois de um tempo, a gente releva o fish and chips e começa a ver que existe algum charme na fog.
    Um abraço

  5. Olá minha filha linda!
    Vc sabia que eu aqui em casa, todos os dias pensava na sua “solidão” aí no Reino Unido e torcia para que aflorasse em vc novamente aquela alma poeta que vc mostrou ter aos 18 aninhos, lembra?
    Que bom que vc retornou com esse texto lindo. Parabéns minha flor, vc é como cada uma dessas desse jardim, cheia de beleza, luz e alegria.
    Beijos… beijos… beijos.
    Te amo,
    Mama.

  6. estou lendo os posts que perdi durante a minha recente viagem a portugal. este foi especialmente lindo e poético. obrigada pela viagem que me proporcionou. é legal brincar de ser feliz, sem pretensões! beijos c.

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