Eu que não como chocolates

Um dos meus filmes preferidos (não me xinguem, eu gosto!) é Chocolate, de Lasse Hallström, com Juliette Binoche e Johnny Depp.

Assisti pela primeira vez há uns oito anos, mas revi-o num dia de insonia, um mês antes de vir para cá. E gostei mais ainda. Porque se passa num vilarejo encrustado na montanha, porque fala do vento que sempre nos leva e que pode nos trazer de volta, da importância de nunca amargar-se com a moral, de deixar o amor chegar, de tentar fazer a vida sempre doce.

Fazer a vida doce não é fácil. Aqui, como aí, é um exercício diário. Às vezes, a gente não consegue. Busca, tateia, mas não acha a alegria.

É então que a gente corre para o supermercado. E compra uma barra de chocolate!

Não que eu goste de chocolates. Doces, só as trufas que minha mãe faz. De sobremesa, nunca peço nada. Meu amor sabe. Prefiro as entradas e o prato principal à sobremesa. Pudins, bolos, tortas não são um bom arremate.

Nesses meses aqui, no entanto, vou aos supermercados constantemente. Olho um kinderbueno e me encho de dúvida: “Compro? Imagina! Coisa de criança!” ou “Que tal um twix? Melhor não…” E assim escolho o mais baratinho, marca Tesco, mas cujo sabor é inversamente proporcional ao valor em pence.

Hoje, enquanto falava com meu amor via Skype, fui tomada por um desejo repentino de devorar uma barra de chocolate. Me assustei. “O que é isso? Quem é essa? Que sou eu?” Tentei me conter.

Quando vi, estava na porta da loja Tesco Express, nos corredores de guloseimas, com a mão na boca, aflita. “Qual levo, senhor?”

Comprei dois baratinhos. Senti o papel alumínio, abri. “Coisa infantil”, pensei. E é.

Por isso o filme Chocolate é tão doce de ver. Porque é a redenção de cada personagem à simplicidade de degustar um prazer pequeno. De se deixar ir. Deixa ir.

“Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida”

(Tabacaria. Álvaro de Campos. Enviado por meu amor, me permitindo comer quantas barras de chocolate forem necessárias para me alegrar o espirito).

Para quem quiser relembrar do filme, um trailler curtinho.😉

7 pensamentos sobre “Eu que não como chocolates

  1. Um post tão doce quanto o mais doce dos chocolates. Saboreei cada linha desse texto e ainda lambi os dedos, com gostinho de “quero mais”.

    Permita-se, mas não se acostume. Certo?

    Beijos, bonita!

  2. Gataaaa… hoje que vi esse canal de encontro com vc. Desculpe-me a lerdeza, mas ainda ando um pouco fora do ar social.. rsrs

    A-D-O-R-E-I os sabores de cacau deste texto. Prometo a partir de hoje escapar das atribulações maternas e vir bizolhar vc… E isso mesmo, procure sempre soluções para a melancolia.

    A minha vida como Peter Pan é que justifica talvez a minha fissura por chocolates. Já comprei dos mais baratinhos aos mais caros, mas ambos com o mesmo efeito prazeroso me deram minutos e horas de alegria. PERMITAAAAAAA-SE SEMPRE…. Chocolate é um ótimo remédio para tapear a saudade, a solidão, a rejeição das gorduras… rsrs

    ESTOU FELIZ POR TI…

    Bjãooooooooooooo grande

    Krol

  3. Oi Keila! eu adorei esse filme, e o trailer me encheu os olhos de lágrimas, daquelas com um sorriso querendo irromper…Acabo de comer uma big lasca de noir 70% cacau com o cafezinho. Eu que também não como chocolate e não me atiro escada a baixo por uma sobremesa-:)
    Comfort food, yummiiiii so good! e com Fernando Pessoa na tabacaria então, perfeito!!! obrigada por esse momento de terna doçura. beijos from Sampa, céu bem azul inverno de 25ºC.

  4. O que acho legal de Álvaro de Campos é que Pessoa o descreve como “um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo”, no que trago muita semelhança com esse seu heterônimo e talvez por isso simpatize mais com ele.

    “Tentar fazer a vida sempre doce”…Gostei.

  5. Keilitcha;
    Eu tbm não como chocolates!!!
    Então pq vc não me chamou para comermos um vidro de azeitona e tomar umas ´breja` como fiziamos em tantas noites sem fim e maravilhosas em Texas City???
    Não vou te perdoar por isso!!!
    hehehheheheh
    Gata permita-se ser criança qdo a vontade bater…Eu ME permito!!!😉
    Repetirei aqui as tão doces palavras de Alvaro de Campos de de Auro Lucio Lindo:
    ´Come chocolates, pequena!Come chocolates`!

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