Autores improváveis

Thanks, querida Pollyana Ribeiro, pela ideia do post. 

Minha primeira aversão ao plágio se manifestou quando eu tinha 14 anos. Estava na praça de São Francisco Xavier e com uma colega muito agitada. Ela tinha um encontro dali a pouco e havia escrito uma carta para o namorado. Uma carta. Êba! Sempre amei cartas! Na verdade, era mais: um poema! A colega me chamou de canto e mostrou sua obra-prima:

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.”

Li, reli… eu não sou uma conhecedora profunda de Fernando Pessoa. Mas, pôxa, tive literatura na escola!

Pega naquela trapaça infantil, ela fez-me jurar que não contaria nada a ninguém. Eu jurei e nunca contei. Porque era um caso privado. No fundo, uma declaração de amor. Seu namorado nunca repassaria o poema, dizendo, por sua vez, que era seu. O ciclo seria fechado, sem possibilidade do poema de Pessoa passar de mãos em mãos, num insulto à obra do poeta.

Diferente desta história há um movimento incompreensível na internet: o dos que adoram subverter créditos.

Incrédula com a presença de tantos autores clássicos em minha caixa de entrada, criei uma obsessão: achar os créditos corretos dos textos de pps e de congêneres que chegam ao meu e-mail.

Na lista abaixo, os verdadeiros autores de crônicas rodadíssimas na rede, que chegaram à minha caixa de entrada e de onde, algumas vezes, sairam com créditos errados:

  •  Bastidores (Quando um homem chama uma mulher para sair, não sabe o grau de estresse que isso desencadeia em nossas vidas…) –  blogueira que se apresenta sob o pseudônimo Sally. 
  • Dar não é fazer amor (Dar é dar. Fazer amor é lindo, é sublime,é encantador, é esplêndido, mas dar é bom pra cacete…) – Tatiane Bernardi, e não Luiz Fernando Veríssimo
  • Use Filtro Solar (Se eu pudesse dar uma só dica sobre o futuro,seria esta: use filtro solar…)– Mary Schmich, e não Pedro Bial. Nome original: Advice, like youth, probably just wasted on the young.
  • Eu sei, mas não devia – Marina Colasanti
  • Relacionamentos – Martha Medeiros, não Miguel Falabella
  • Aprende (Um dia a gente aprende a diferença a sutil diferença…) – Nome original: After a While. Veronica Shoffstall, e não Willian Shakespeare. Tem uma explicação muito legal sobre esse texto aqui.
  • Ode à bunda dura (Tenho horror de mulher perfeitinha, Odeio qualquer uma que fique maravilhosa num biquíni…).– Ailin Aleixo, e não Arnaldo Jabor
  • Não nos contaram (Fizeram a gente acreditar que amor de verdade só acontece antes dos 30…) – Martha Medeiros, e não John Lennon.
  • Recomeçar (Não importa onde você parou… Em que momento da vida você cansou…) – Paulo Roberto Gaefke, e não Carlos Drummond de Andrade.
  • Vida (Já perdoei erros quase imperdoáveis, tentei substituir pessoas insubstituíveis...) – Augusto Branco, e não Charles Chaplin.
  • Currículo Vitae (Eu já dei risada até a barriga doer, já nadei até perder o fôlego, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado…) – Julliana Spadotto.
  • A dor que mais dói (Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói) – Martha Medeiros, e não Miguel Falabela (de novo…)

 Alguém, com a mesma implicância que eu, até criou um blogAutor Desconhecido – Para provar que autor desconhecido não existe”. É interessante porque a autora traz o caminho percorrido pelo texto, do original ao plagiado, que, no fim das contas, pode vir cheio de pontos de exclamação, transformado em poema, e enxertos mais. Vale dar uma checada toda vez que você receber aquela mensagem atribuída a Charles Chaplin ou a Gandhi.

Veja essa pequena crítica feita pela autora do blog, Vanessa Lampert sobre os plágios com os textos de Martha Medeiros (com certeza, a mais plagiada da Internet).

 Nem Mario Quintana, nem Arnaldo Jabor

 O texto que circula com o título “Sentir-se Amado” na verdade é uma deformação do texto da Musa do Autor Desconhecido, Martha Medeiros (eu ainda vou descobrir qual é o pecado que essa mulher cometeu e que está condenada a pagar para sempre), publicado originalmente em sua coluna no Site Almas Gêmeas. Cúmulo da degradação da espécie, esse texto (alterado, picotado e distorcido) tem versão em Power Point com “Endless Love” tocando, bregamente, ao fundo. Não acredito que alguém consiga cometer um pecado imenso o suficiente para merecer tal penitência, acho que Martha Medeiros tem um Encosto Desconhecido que altera, deliberadamente, todos os seus textos. A criatura tem toda a lista das crônicas do Almas Gêmeas e se acha “A” artista ao alterar, um a um, com requintes de crueldade. Aí vai, como de praxe, o texto original, e em seguida, a aberração que o persegue (…)

Aqui, texto de Martha Medeiros, sobre o saco que é ser constantemente plagiada.

Entao, voce, leitor responsavel: toda vez que receber um texto daquele autor improvavel, desconfie. 

Porque não é todo dia que Shakespeare bate a porta da sua caixa de entrada, ok?😉

3 pensamentos sobre “Autores improváveis

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