A noite do fail

Quando Ayano, Hussam e eu saímos na sexta-feira do dia 16 de julho não ambicionávamos mais que um momento de descontração num pub com jardim.

Dirigimos-nos ao Playhouse, muito legal, mas sempre concorrido. Sem mesas do lado de fora, perdemos o interesse e decidimos trocar de bar.

Logo na porta, encontramos Almudena, com seu característico cachecol vermelho brilhante. Vendo-a sozinha, situação mais que incomum, convidamo-la a juntar-se a nós.

– Não, vim encontrar um amigo.  

– Amigo? Que amigo?!

– Ele.

Do lado contrario, lá vinha um moço inglês com os cabelos ruivos dos escoceses, sozinho também, vestido para caçar com sua camisa azul meio aberta no peito.

Almudena nos apresentou Will. Tão sem-graça quanto nós, ela se esforçava em mostrar que ele era só um amigo e não o cara com quem ela tinha marcado um encontro secreto, o qual tínhamos acabado de estragar. Para provar tudo isso, ela resolveu seguir com a gente para o próximo pub.

Começa a noite.

Optamos por um pub irlandês, muito legal. Só o Will não era legal. A cada vez que ouvíamos um pedaço da conversa entre Almudena e ele, era sobre alguma ex-namorada. Ou sobre a mãe dele.

Do lado de fora para um cigarro, Hussam, da Arábia Saudita, inspirado pela atuação de Almudena no campo amoroso, explicava sua teoria para que as mulheres sejam valorizadas: não beijar, não ficar, não dar. Ignorar.

Como Hussam é um cara compreensível, fui mostrar o meu ponto de vista. Por que fui fazer isso… Aya, do Japão, ficou chocada ao saber que, no Brasil, a gente beija na boca sem namorar. Deu um gritinho abafado quando expliquei que é impossível namorar alguém sem beijar antes! Que a gente beija as pessoas por uns três meses antes de namorar. Que ninguém começa a namorar sem fazer esse pequeno teste de forças antes.

Ela ficou corada, levou a mão na boca, riu histericamente. Imaginei Aya numa revistaria no Brasil, com publicações como Nova e Cláudia e suas chamadas de capa: “Dar ou não dar na primeira?”

De volta ao recinto, Will continuava o relato sobre suas ex-namoradas. Almudena parecia um pouco entediada nesse momento. Hussam e Aya descreviam o casamento em seus países.

Chiara e o namorado então chegaram para dar força aos meus argumentos sobe beijar, explicando que na Itália as coisas funcionam mais ou menos como no Brasil. Mas jurou de pé junto que na Itália não tem viado. Tipo, na Itália! Hussam disse que os gays no seu país não são apedrejados (sim, eu perguntei) e que eles podem viver juntos, mas não casar. Daí, começamos a falar da Argentina, da liberação do casamento gay, do Papa…

Mas, Will continuava falando das suas ex-namoradas. Juro! Não estou exagerando. Almudena ficou tão entediada que me chamou para a conversa.

– Keila, a ex-namorada dele mora no Canadá.

Para tentar cortar aquele assunto, falei que namoro que tinha um oceano no meio não dava certo, que era bom mesmo que tudo tinha acabado e que era melhor ele arranjar uma garota perto dele.

– Nossa, minha mãe me fala a mesma coisa.

Tipo, de novo a mãe.

O pub irlandês se mostrava muito agradável. Na trilha sonora, Frank Sinatra, U2, Beatles e Elvis Presley, tudo misturado. Foi admirando a trilha sonora que me surpreendi quando começou:

Turnround…

“Nãaaaao acreditooooo”! A expressão máxima do brega americano dos anos 1980, o melodramático, contundente e performático Total Eclipse of the Heart, o hino de Keila Guimaraes, Heitor Botan e Ticiane Toledo tocando aqui, em Norwich, e eu numa mesa onde ninguém sabia cantar!!!

Não pensei duas vezes. Ao ver uma mesa com duas garotas se acabando em cada verso, me juntei a elas, no melhor estilo latino, que invade lugares e abraça pessoas só porque está emocionado. O bom é que, bêbado, todo mundo – até os ingleses – é meio latino.

Acabou a música, eu pedi para a gerente do bar voltar a song, mas ela disse que não rolava. Ok, entendo.

Então, nosso amigo turco Oral chegou e completou a série de ironias daquela noite.

Tão logo ele sentou-se à mesa, tão logo Will esqueceu todos os problemas com suas ex-namoradas. Tomou Oral para si como quem toma um tesouro e iniciou com ele um diálogo particular, ao qual nenhum de nós tinha acesso.

Hussam e eu começamos a achar aquilo suspeito. E a ficar com pena de Oral, que estava animado, acreditando estar exercitando o inglês com um nativo. Mas, aí Will disse para ele que a coisa mais bonita num homem era a boca e a gente não suspeitava de mais nada.

Não sei se porque ríamos como hienas, ou se porque tinha bebido além da conta, mas Will resolveu deixar o recinto, sem mais.

Ao deixar a mesa, Oral, alheio a tudo que acontecia, virou-se para nós com grande entusiasmo:

He is so nice!!

Nós, num coro:

– Oral, ele é gaaaaaaay!!!

Oral ficou ofendido. Duvidou. Argumentou. Refutou. Mas, vencemos.

– É, ele disse mesmo que eu era bonito…

Na volta pra casa, não acreditávamos nas ironias daquela sexta-feira. Presenciamos o encontro romântico-secreto de Almudena com o cara mais estranho da cidade que, no final da festa, se apaixonou pelo nosso amigo.

Era, definitivamente, a noite do fail em Norwich. 

Com Almudena e Salem, no Irish Pub, mas na semana anterior.

Com Hussam e Oral.

8 pensamentos sobre “A noite do fail

  1. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    x n vezes

    rsrsrsrs

    muito boa essa história, aliás, todas elas são muito engraçadas e devem ser publicadas um dia.

    mas a bonnie tyler com o turnaround foi o melhor, eu fui capaz de me transportar para a cena. hilariante!

  2. Keilinhaaaaaa! Achei fantástico! ahuahuahua Ri muito e consegui imaginar todas as cenas.
    Nunca tenho tempo, mas sempre que posso leio o que você escreve e, claro, adoro!
    Saudades!!!
    Beijos

  3. Keilaaa!
    Menina, e eu que pensava que a única noite fail que alguém poderia passar era aquela dos blood maries e da Maria Gadu! Mas essa noite fail sua prova o contrário!
    História hilária, ri muito aqui!
    I really need you tonight. Forever is gonna start tonight! Forever is gonna start tonight!
    Beijos!

    • “Ri, gente, pode rí” (sic)

      Assim como o Heitor, também achava que aquela nossa noite no bar-cujo-cantor-não-sabia-nenhuma-música era o epic fail. Mas não, o fail está em todo lugar. Pensando bem… será que a gente atrai isso, menina? Medo!

      A primeira coisa que a gente vai fazer quando vc voltar é cantar Total Eclipse. Vc, Heitor e eu, numa só voz, num só coração. Cafonice é nosso lema.

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