Cheia de saudade

(Este blog adverte: a crônica abaixo não tem ligação alguma com programa de intercâmbio. Mesmo assim eu postei aqui ;))

Ando matutando cá com minhas mãos e meus ouvidos que esse meu peito cheio de mágoa não combina muito com uma vida bonita para a gente ter. Penso agora que vale um esforço a mais para tentar colocar aqueles brotos para fora e deixar florescer o que não seja só o que a gente admite todo o dia.

Dou uns passeios pelas minhas varandas abandonadas. Encontro um musgo, depois uma lesma, vagueando numa umidade materna que foi deixando a casa ser povoada por todos aqueles que expulsei quando precisei colocá-la em ordem.

Sento no degrau molhado da entrada da minha vida pequena e ponho-me a relembrar onde estavam as entradas secretas, que há muito eu havia me esquecido do pé de maracujá que guardou uma taturana verde e grande e que acabou por queimar minha testa. Corremos passar pasta de dente para ver se melhorava e tropeçamos no balanço, no mato alto, nas folhas úmidas, nos cães e nos gatos. Um verdadeiro inferno. Pois cortamos o pé de maracujá e arrancamos o balanço agourento, matamos os cachorros de velhice e deixamos a gata à própria sorte. E, nos degraus úmidos de um lugar invadido por coisas que a gente esquece todo dia, eu voltava a querer o pé de maracujá e as nossas canções, aquelas que nunca entoamos juntos, mas que compartilhamos, porque algo em nós era tão bobo que acreditava nessas alegrias, só que, aqui, penso que falar de nossas músicas doa em mim.

Tenho que falar do meu medo de ir até lá, ouvir o ranger murcho daquela porta encostada no meu silêncio e abri-la a ponto de ver onde deixei a partitura de Rendez-Vous. Nunca te mostrei essa, né? Foi a primeira que fez minha mãe chorar ali naquela janela quando esses degraus ainda tinham o vermelhão daquele chão vermelho, mas sem esses trincos gigantes aqui.

Pois falava eu das músicas que não cantamos. Na verdade, aquela foi a única que você cantou para mim e que me pôs a pensar quem eram aqueles dois que falavam de peixinhos e de beijinhos enquanto aquele chacoalhar do violão parecia tão morno e tão intelectual.

Entoamos várias partes desta canção e, muito mais, o refrão. Ontem mesmo no ônibus fiquei horas pensando em você, sem achar as palavras que ligavam uma estrofe a outra. Ah, esta minha memória. Até esqueci de empurrar a porta para saber o que tanto cresceu em mim na minha ausência. Mas, como posso entrar com esses formigueiros que me botam arrepios?

Prefiro pegar o celular e te ligar antes de tomar o ônibus: “amor, como é mesmo aquela música? Canta comigo? ‘…que é pra acabar com esse negócio de você viver sem mim, não quero mais esse negócio de você longe de mim’”.

Nesse meu estado ensimesmado, chego à conclusão de que ela está ali, guardada, mas eu nem pude atravessar a porta com os cupins e os formigueiros que escavaram a minha casa para eu chegar lá naquele dia quando recebi as estrofes de uma canção miúda, que aqueceram algo grande e macio em mim.

 

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