Entre gavetas

(Tudo é relativo. Mas, mesmo quem nunca foi pro céu sabe que o céu é azul.)

Pousa, alisa, põe teus dedos no meu amor
Que se desdobra e se desmancha
E depois de se esparramar por todas as salas e quartos
Onde meu corpo couber, olhe,
Meu amor será luz.

Meu amor é meu tesouro e minha riqueza
Minha luz e meu grito.
Meus dias vão escorrendo como chuva na calha de casa
E faz o sono ser algo meditativo
Com aquela gota ávida e impertinente que fica caindo, de vertigem
…tlôp…tlôp…
Caiu e cairá, sempre,
No meu coração,
Tingindo tudo de transparente, de invisível, de inefável…
…tlôp…tlôp…
– A gota que preenche este vazio que se move e me consome
Mas que está por um fio de ir-se.

Meu coração agora é um coração em companhia.
Seus braços estão leves e soltos entre campos vermelhos e céu que é um pouquinho mais baixo que o comum,
E a gente pode pôr o dedo e alisar o azul do céu
O azul distante do céu que eu trouxe para perto de mim
Aquele azul que não existe,
E meu amor vive no azul que não existe do céu azul,
Meu amor é o azul do céu que é infinito,
O infinito que é baixinho para eu poder colocar meus dedos e sentir a textura de vento
No toque no que é inefável e intangível.

Meu amor é uma casa dentro da minha casa.
Meu amor é casa de ternura dentro da minha casa de descaso.
Meu amor é uma casa de canções e notas
Soltas
Dentro do meu caderno velho de partituras
Que eu fiz questão de escrever inteiro em poesia.

Escrevi palavras na pauta sem a clave.
Na pauta sem o compasso.

Minhas palavras foram andando sem divisão
Como um canto que é eterno
E não tem os tempos demarcados
Pelos colchetes das notinhas pretas e abertas
Pelas notinhas redondas de quatro tempos,
Que são tão intensas…
Ocupam um compasso inteiro, só elas.

Meu amor é minha canção sem tempo, sem lugar, meu amor é meu amor
Dentro do mundo com o céu baixinho,
No azul que não existe do céu que continua a ser pra sempre azul
Mesmo eu sabendo que o azul não existe.  

SFX
2005

5 pensamentos sobre “Entre gavetas

  1. Keila!!
    Há muito tempo não entro no seu blog (peço mil perdões por isso!), e hoje, quando finalmente entrei, me deparo com esse poema lindo! Amei!
    Prometo que daqui em diante vou visitar esse espaço com a mesma frequência de antes, pq é bom demais ler o que vc escreve!
    Beijos!

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