Língua de Luís de Camões

 Flor do Lácio, sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode essa língua?

Para mim, cada idioma tem uma beleza. Um ritmo, um tom, uma cara. Um idioma molda a boca da gente. Falar é uma questão muscular. Mas, para mim, não há língua mais bela que a língua portuguesa.

Em 2008, Príncipe e eu estávamos num ônibus na Espanha, partindo de uma vilazinha qualquer na Galícia. Só havia mais dois passageiros: uma senhora, acompanhada do netinho. O príncipe e eu falávamos animadamente naquele ônibus vazio, quando ela lhe cutucou o braço e perguntou:

– Mas, que língua é essa que soa tão bonita aos ouvidos?

***

Não é diferente aqui. De vez em quando, temos um exercício em que, no final, somos convidados a falar uma das frases em inglês em nosso próprio idioma. Nunca passa impune uma sentença dita em português. Eles ficam surpresos, principalmente os ingleses.

– Como é suave. Fala de novo, insistem.

Enquanto os espanhóis tem aquele “r” marcado, os italiaaaaanos fálam tôodo arrastááádo. Quando minha amiga termina um diálogo em italiano, pergunto: “Tudo bem?” Tenho sempre a impressão de que ela estava tendo uma discussãozinha.

Em sala, num exercício sobre “suas habilidades”, certa vez me perguntaram:

– No que você é boa?

– Em língua portuguesa.

– Mas isso é óbvio. Você fala português desde que nasceu.

– Mas não é só falar. Tem a gramática. Na faculdade, por exemplo, gastamos um bimestre só estudando vírgulas…

Não expliquei para ela o valor de uma elipse, de uma elisão, de uma aliteração, de um vocativo. Isso tudo faz do português uma língua que me enche de prazer.

Temos muitos sons, também, não sabia quantos. Os italianos, por exemplo, não conseguem falar “home”, “hungry”. Falam “ome”, “angry”, porque não têm, na língua italiana, os sons de “rra”. Embora no inglês, o som de “rra” esteja na letra “h”, o brasileiro conhece esse som. Ele pode pronunciá-lo.

Os japoneses se embolam com o “v”, com o “r”.

Os espanhóis sofrem com as nuances do inglês. Não vêem diferença entre “food” e “foot”. Entre “clothe” e “close”. Acham um parto pronunciar os verbos no tempo passado, como “finished” ou “watched” ou mesmo encontrar o ritmo da nova língua. Eles sabem o porquê:

– O inglês é cheio de sobe e desce. No espanhol, você começa a frase e termina, não precisa dessa variação.

No português, a gente é cheio de sobe e desce. A gente sabe muitos sons.

Adoro explicar o valor de uma sílaba aqui. Me perguntaram uma vez o que se dizia na hora do brinde no Brasil. Eu parei tudo para escrever a palavra “Saúde!” e explicar a primeira coisa que aprendi sobre a língua portuguesa: de que tudo nasce da junção entre uma vogal e uma consoante. Sou uma entusiasta das vogais, essas cinco letrinhas que tornam tudo possível.

Aprender outro idioma é definitivamente fazer as pazes com o seu.

5 pensamentos sobre “Língua de Luís de Camões

  1. lindo texto Keila!
    eu amo a nossa língua portuguêsa, tão rica e cheia de nuances. E talvez por ter crescido com outros 3 idiomas sempre estive em paz com todos….mas paixão, tesão, curtição mesmo é por essa língua na qual as aves que aqui gorgeiam não gorgeiam como lá.
    Parabéns! beijosbeijos

  2. ola keila, como sempre, gosto dos teus “escritos” e é bonito como você gosta do que é teu. para mim o portugues “brasileiro” talvés possa ser considerado suave, mas o portugues portugues mesmo, luso, é contundente, incisivo e forte, de suave não tem mesmo nada aos meus ouvidos, mas eu adoro esta “musica” lusitana.
    já no caso do h (aga!!) e do r (ere) os brasileiros – os lusos não – trocam um pelo outro, o que para mim é hilário! conseguem falar os dois sons, mas insistem de falar h quando esta escrito r e vice e versa. por exemplo, o meu sobrenome (runte) começa com r, se algum me pergunta, como é teu nome e eu falo runte a pessoa (brasileira) invariávelmente escreve hunte! beijinhos

    • também adoro vogais! e por isso é uma tortura ler as palavras holandesas com aquelas 3 consoantes seguidas uma da outra e apenas 2 vogais numa palavra gigante de 10 letras, rsrs

  3. Outra dificuldade dos espanhóis é com a letra “v”, que eles não conseguem pronunciar da mesma maneira que nós… eles sempre soltam um “Bery good”, ou quando se esforçam pra falar diferente do que eles aprenderam em espanhol, falam “Fery good”… hehe, é engraçado…

  4. Adorei o texto Keila!!! E concordo plenamente que se sente um enorme prazer em falar português em terra estrangeira! Aliás, mais gostoso ainda é ouvir alguem falando…e logo vem “Você é brasileiro?! Num acredito!” Pronto, mais um amigo pra viagem!!!rsrs

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