Eu tenho medo do Mesmo

Foi durante a faculdade, numa das maravilhosas aulas da professora Miriam Puzzo, que conheci um erro muito comum da língua portuguesa: o uso incorreto do adjetivo/pronome mesmo.

A professora Miriam,  nossa Pasquale Cipro Neto muito mais avançada nos conhecimentos da língua, explicou de modo sucinto que as palavras mesmo/mesma nunca, em hipótese alguma, podem ser usadas como equivalentes a um substantivo.

E tal qual o Bob, do desenho animado dos anos ’90 O Fantástico Mundo de Bob, demorei um tanto para entender aquela frase quase enigmática:

Mesmo só pode ser usado como adjetivo, não como substantivo”.

Foi quando entrei no elevador do meu antigo prédio e, ao ler o aviso aos usuários, compreendi o significado daquele enigma:

“Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”.

Caramba, quem é o mesmo? Que cara tem o mesmo?! Será que o mesmo morde? Que será que acontece se eu abrir o elevador e o mesmo aparecer aqui?

Apavorante.

Tão medonho que surgiu uma comunidade no orkut e um grupo no Facebook, “Eu tenho medo do mesmo”,  título que dá nome a este post.

Essa revelação durante a faculdade mudou a minha vida.

Quantas vezes, indiscriminadamente, não criamos monstros e entidades paralelas nos nossos textos ao colocar na roda dos substantivos este tão útil adjetivo? Quantas vezes não subvertemos o seu significado, quantas vezes não amedrontamos seres frágeis diante de um elevador com avisos gramaticalmente apavorantes?

Esses dias, recebo o email de um site de compras.

“Para que você possa postar o produto é necessário que o mesmo esteja bem embalado em uma caixa, envolto com papel pardo ou papel branco…”

Pensei: mas, moça, não veio nenhum mesmo com o produto…

A essa altura do post, você, que a vida inteira passou ouvindo e/ou escrevendo mesmo quando queria evitar a repetição do substantivo, achando que aquele significaria esse, pode estar bem cético. Poderia o mundo inteiro estar errado e só a professora Miriam Puzzo, certa? Seria possível que o mesmo não exista?

Ele existe. Assim:

“Esse é o mesmo elevador de ontem.”

“Coloque o produto na mesma caixa na qual foi enviado.”

“Essa dúvida é a mesma de todo mundo.”

E é classificado como substantivo pelo Houaiss assim:

“Procurou porque lhe disseram que ainda era o mesmo.”

“Viajar ou não era o mesmo para ele.”

“Isso é o mesmo que lhe dizer não.”

Espero que esse post ajude a colocar o mesmo no seu devido lugar.😉

3 pensamentos sobre “Eu tenho medo do Mesmo

  1. O “mesmo” sempre me lembra você, sabia? Mesmo que você não lembre do acontecido.
    Um dia lá na CMT me passaram um texto para ser corrigido, devia ser o BL, e depois repassaram a você, que disse que só uma coisa tinha passado despercebida, um desses “mesmos” substantivos. Aí olhei e vi que o texto era meu e que eu tinha escrito aquilo pelo hábito e que nem tinha lido direito para prestar atenção no “mesmo” e no quanto essa palavra sem sentido ficava ainda mais sem significado algum. Nunca mais esqueci.
    Que confusão, até isso o “mesmo” faz. Vai entender, né?
    Saudades

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