Um padre tipo ateu na noite de Natal

Era noite de Natal e eu resolvi tentar algo que nunca havia feito na data Natalina: fui numa missa.

Havia lido sobre o coral da St Martin-in-the-Fields, uma igreja na Trafalgar Square. O show, especial para a ocasião, seria acompanhado pelo órgão da igreja e aquilo me soou um ótimo programa.

Interior da igreja. (Foto: Brett Jordan - Creative Commons)

Interior da St Martin-in-the-Fields, na Trafalgar Square. (Foto: Brett Jordan – Creative Commons)

Cheguei e fui recepcionada por pessoas simpaticíssimas, que me entregaram um folheto com as leituras daquela noite. Achei ótimo. Lembro que quando era criança rezava com antecedência para que me dessem o folheto nas missas de domingo. Era minha única escapatória para o tédio que se abatia sobre mim durante as longas leituras entoadas com voz monótona pelo padre da paróquia local.

As músicas eram poéticas e as vozes angelicais do coro pareciam de fato elevar meu espirito a um lugar mais calmo e mais bonito. Tinha uma coisa meio Monty Python nas letras, mas ainda assim era bonito.

Tudo estava na perfeita ordem. E então o padre subiu ao púlpito.

“Hoje eu irei contar duas histórias”, começou o padre.

Sua primeira parábola era sobre a criação do Universo. Qual não é a minha surpresa ao ouvi-lo pronunciar as palavras Big Bang. E aquilo era só o começo. O padre continuou, com explicações sobre a formação geológica da Terra, sua evolução durante milhares de anos, a formação de microorganismos, a evolução das espécies, a chegada do homem.

Nada de Adão e Eva, moldes de barro, sopro de Deus.

Eu só podia estar mesmo na terra de Darwin, pensei. Até os padres aqui são evolucionistas!

Sua segunda história era mais mundana. A corrida pelos presentes de Natal, as rixas do trabalho, o medo de não ser bem-sucedido, a angustia das ambições não conquistadas.

Os dois opostos, céu e Terra, cosmos e humano, haviam sido apresentados. Aquilo começava a fazer sentido.

Seu ponto era que o Natal marcava o momento em que esses dois universos, cósmico e terreno, haviam se encontrado. O Natal era a celebração do homem vislumbrando o divino e do divino se apresentando ao homem. E isso era motivo de celebração.

Fiquei esperando ele pronunciar as palavras “Jesus”, “Filho de Deus”, “manjedoura”. Nada disso. Era a primeira vez na vida que eu ficava vidrada no sermão de um padre. Aquilo soava filosófico, poético, complexo, mas jamais entediante.

No fim, queria levantar e aplaudir, mas vi que não era esse o código de conduta, e só fiquei achando aquela noite sensacional.

Agradecida, paguei o dízimo.

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