7 coisas que aprendi com os ingleses

Quando a gente muda de país geralmente pensa na atividade que vai fazer lá – trabalhar, estudar, fazer um curso de inglês, turistar.

Poucas vezes pensamos nos desafios que vamos encontrar e nos perrengues que estão por vir.

Quando vim fazer meu mestrado, estava ansiosa pelas aulas e pelas ferramentas que iria aprender. Não imaginava as lições que eu tomaria do cotidiano, da relação com as pessoas e de ver como os ingleses tocam a própria vida.

Seis meses depois de chegar à Inglaterra, posso dizer que passei uns bons perrengues. E, claro, aprendi muito. Aprendi sobre mim, sobre meu país e sobre o mundo.

Desde a pouca tolerância a qualquer reclamação à pouca indulgência dos ingleses, são essas as lições que, por enquanto, absorvi:

1. Dedique-se continuamente a algo útil

Todos os dias os ingleses estão fazendo alguma coisa de útil. De domingo a domingo, na sobriedade ou na ressaca, de manhã e de noite, sempre é hora. Se não tem uma atividade para fazer do mestrado (e olha que sempre tem), os ingleses estão desenvolvendo um jogo interativo, um post no próprio blog, testando um software novo, aprendendo uma ferramenta digital nova… Há uma questão cultural que os compele a serem produtivos, sempre. É verdade que esse ambiente de extrema produtividade te deixa se sentindo um inútil no começo mas, depois, ele cria um efeito muito positivo. Você aprende que simplesmente tem muito a aprender e que não pode desperdiçar tempo algum.

2. Competitividade é bom

Estar à frente é algo que todo inglês preza muito. Qualquer competição vira algo seríssimo, até mesmo um pub quiz. No começo, o nível de competitividade dos colegas do mestrado causava mal-estar físico. Achava aquilo doentio e que eu nunca me adequaria. Mas, por outro lado, esse espírito de competitividade acaba sendo bom: você não quer ser o único que não tirou nota boa, o único que não arranjou trabalho, o único que não recebeu uma menção honrosa. A competitividade, aprendi, impulsiona as pessoas a se superarem.

3. Fim de semana não é descanso

Antes de vir para cá eu tinha a cândida ideia do “fim de semana sagrado”. Mas, aqui, aquela lógica de que se você trabalhou a semana toda tem direito a descansar, é algo inexistente. Abrir mão disso, aliás, foi bem difícil. Via a tarde de sábado indo embora, enquanto eu passava incontáveis horas nas atividades do mestrado, e achava isso um desperdício de vida. Agora, contudo, posso dizer que aprecio trabalhar de forma contínua. O bom é que, dentro dessa lógica, uma tarde livre tem um valor enorme. Um valor diferente de quando eu tinha várias tardes livres.

4. Os ingleses são muito diretos, só que não

Decifrar a verdade por trás de todos os artfiícios de linguagem de um inglês é tarefa laboriosa. Eles darão muitas voltas para dizer o que querem e nunca dirão o que pensam. Vão dizer que gostaram muito daquilo que você fez quando, na verdade, detestaram. Vão dizer que estava tudo bom quando estava tudo péssimo. Mas, com o tempo, você aprende a quebrar a polidez inglesa, e, aí, encontrará toda a acidez real escondida entre os “lovely” e “wonderful” que eles enfiam em todas as frases.

5. Toda economia vale a pena

O brasileiro, em sua maioria, tem medo de soar pobre e, por isso, acha que economia pequena é “ninharia”. Aqui vejo os estudantes deixarem a cantina da faculdade e irem ao supermercado para economizar 0,50 de libra. Vejo alunos com marmitas todos os dias, e vejo ainda os que levam a marmita para o pub para não gastarem com comida (o dinheiro é sempre reservado para o pint). Aqui, toda economia é importante. E não é porque esses estudantes não têm dinheiro – são todos filhos de classe média, fazendo algo de luxo, que é um mestrado, e um mestrado caro. A questão é de princípio. Não se gasta com o que não é necessário.

6. Solidariedade tem um significado diferente

Eles são pouco solidários no dia a dia. Não se divide comida, espaço, bebida, anotações, nada. Tem festa na casa de fulano e cada um leva a sua bebida. E ai de quem beber a bebida alheia! A regra subjacente é: cada um faz o seu e assim todos fazem o que precisa ser feito. Apesar do pouco espírito solidário, há centenas de voluntários e ONGs espalhadas pelo país. Para os desavisados isso pode soar como solidariedade. Eu tenho um outro palpite: é o grande senso de responsabilidade social dos ingleses, e não a generosidade, a explicação para tal fenômeno. É engraçado que no Brasil temos o oposto. Muita caridade, pouco senso do coletivo.

7. Reclamar é proibido

Nós, brasileiros, adoramos reclamar. E eu, claro, não fujo à regra. Aqui, contudo, aprendi logo cedo que fazer drama é tipo proibido. Esboce uma reclamação e alguém vai logo fazer o contraponto. O “always look on the bright side of life” é mesmo uma filosofia. E não é porque eles são pessoas super otimistas. Na verdade, eles são muito práticos. Qualquer reclamação é vista como uma fuga à realidade, uma fraqueza, uma falha do reclamador. No começo era muito angustiante não poder reclamar de tu-do o que que eu queria. Mas, depois, esse exercício me mostrou como a vida é melhor quando você não reclama. Reclamar é um vício e só percebemos isso quando mudamos de atitude.

Um padre tipo ateu na noite de Natal

Era noite de Natal e eu resolvi tentar algo que nunca havia feito na data Natalina: fui numa missa.

Havia lido sobre o coral da St Martin-in-the-Fields, uma igreja na Trafalgar Square. O show, especial para a ocasião, seria acompanhado pelo órgão da igreja e aquilo me soou um ótimo programa.

Interior da igreja. (Foto: Brett Jordan - Creative Commons)

Interior da St Martin-in-the-Fields, na Trafalgar Square. (Foto: Brett Jordan – Creative Commons)

Cheguei e fui recepcionada por pessoas simpaticíssimas, que me entregaram um folheto com as leituras daquela noite. Achei ótimo. Lembro que quando era criança rezava com antecedência para que me dessem o folheto nas missas de domingo. Era minha única escapatória para o tédio que se abatia sobre mim durante as longas leituras entoadas com voz monótona pelo padre da paróquia local.

As músicas eram poéticas e as vozes angelicais do coro pareciam de fato elevar meu espirito a um lugar mais calmo e mais bonito. Tinha uma coisa meio Monty Python nas letras, mas ainda assim era bonito.

Tudo estava na perfeita ordem. E então o padre subiu ao púlpito.

“Hoje eu irei contar duas histórias”, começou o padre.

Sua primeira parábola era sobre a criação do Universo. Qual não é a minha surpresa ao ouvi-lo pronunciar as palavras Big Bang. E aquilo era só o começo. O padre continuou, com explicações sobre a formação geológica da Terra, sua evolução durante milhares de anos, a formação de microorganismos, a evolução das espécies, a chegada do homem.

Nada de Adão e Eva, moldes de barro, sopro de Deus.

Eu só podia estar mesmo na terra de Darwin, pensei. Até os padres aqui são evolucionistas!

Sua segunda história era mais mundana. A corrida pelos presentes de Natal, as rixas do trabalho, o medo de não ser bem-sucedido, a angustia das ambições não conquistadas.

Os dois opostos, céu e Terra, cosmos e humano, haviam sido apresentados. Aquilo começava a fazer sentido.

Seu ponto era que o Natal marcava o momento em que esses dois universos, cósmico e terreno, haviam se encontrado. O Natal era a celebração do homem vislumbrando o divino e do divino se apresentando ao homem. E isso era motivo de celebração.

Fiquei esperando ele pronunciar as palavras “Jesus”, “Filho de Deus”, “manjedoura”. Nada disso. Era a primeira vez na vida que eu ficava vidrada no sermão de um padre. Aquilo soava filosófico, poético, complexo, mas jamais entediante.

No fim, queria levantar e aplaudir, mas vi que não era esse o código de conduta, e só fiquei achando aquela noite sensacional.

Agradecida, paguei o dízimo.