Nicolaska, de São Xico para o mundo

Pois é, amigos: chegou o grande dia em que introduzi a famosa Nicolaska para os amigos de cá. E foi sucesso absoluto.

Antes de começar este post, uma explicação sumária para os incautos que não conhecem a bebida:

Nicolaska é uma espécie de drink levada às terras de São Francisco Xavier (SP) por Mauro Orlando, onde foi recebida com louvor (receita abaixo). O drink, que envolve doses de conhaque, limão e pó de café, sempre gera curiosidade, quando não asco, embora a aceitação seja de 100% entre os que já provaram.

Meus amigos japoneses foram os corajosos que não se intimidaram frente às fatias de limão cobertas por pó de café e açúcar aqui no estrangeiro.

Como tudo aconteceu

Depois de eu contar sobre o famoso drink e eles ficarem extremamente curiosos, decidimos fazer o test-drive no sábado (25), que ganhou status de evento. Todo mundo na casa do novo amigo em comum, vindo do Japão, Tasuku: Ayano, Asaka e eu. Eles nunca tinham provado conhaque antes e eu estava um pouco ansiosa: será que eles vão gostar? Será que Aya terá ânsia de vômito? Será…

Um, dois, três, virou!

Amazing!
Incredible!
So nice!

Todos eram só elogios para a Nicolaska. Ficaram tão impressionados que se comprometeram a repassar os conhecimentos adquiridos para os amigos do Japão. Nicolaska, pra você, o mundo!

Achei que uma garrafa de conhaque fosse um exagero, muita coisa. E qual não é a minha surpresa ao derrubar a última gota num dos copos de dose? Sucesso como poucos.

Such a lovely evenning

Entre uma dose de Nicolaska e outra, conversamos muito e demos muita risada, tudo regado a pints de ciders. Aproveitei o momento oportuno para mostrar aos japas coisas legais sobe o Brasil. Acho eu estava meio bêbada, porque mostrei até uma foto da rodovia Imigrantes.

Mas teve outros momentos ótimos: mostrei a eles o fantástico livro do John Hersey, Hiroshima, sobre a bomba atômica, e conversamos bastante sobre como os japoneses encaram o acontecimento, o país no pós-guerra. 

Mostrei-lhes um vídeo de Ney Matogrosso cantando Rosa de Hiroshima e eles ficaram encantados com a beleza do Ney, aquelas fantasias, aquelas roupas… Pediram bis. Teve ainda Fernanda Takai cantando até em japonês. Aya acordou hoje me pedindo os nomes de Fernanda e Ney. Quer ouvir mais.

No Ipad de Tasuku, que é a coisa mais moderna do mundo, mas a mais moderna mesmo, lhes mostrei São Francisco Xavier, ruas, a igreja, a praça… eles me mostraram Okaido, região onde Asaka vive, e me recomendaram uma visita à parte campestre do país. Eu vou.

Adorei essa tarde regada a gadgets (e a Nicolaskas) que me possibilitou mostrar São Xico para o mundo e conhecer outra parte do planeta. Muito legal, né?

Encerramos a noite. Não sem antes eu lhes prometer uma rodada de caipirinhas.

Mas isso é história pra um outro post.

***

Receita Nicolaska

O drink é muito simples de ser preparado, conforme a receita abaixo:

  1. Doses de conhaque.
  2. Fatias de limão (uma fatia fina de limão).
  3. Pó de café.
  4. Açúcar.

Preparo

Coloque sobre cada fatia de limão uma camada fina pó de café e outra de açúcar. Tenha a mãos um guardanapo. Sirva uma dose de conhaque para cada Nicolaska

Como degustar

Coloque a fatia de limão na boca. Mastigue e não engula o sumo. Pegue a dose e beba-la de uma vez só! Retire o bagaço do limão com o guardanapo (não se esqueça dele!) e dê um gritinho de animação. Espere dez minutos e você verá porque Nicolaska é tão legal.

Preparação.

Com Asaka.

Tasuku, Asaka e eu.

Ayano e Tasuku

Ruffus. Beijei muito esse nariz molhado.

Uma garrafa foi pouco.

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Feliz aniversário

Depois de exatas duas semanas sem postar, de volta!

E que semanas agitadas foram essas: despedidas, aniversário, despedidas de novo e viagens.

Mas esse post será sobre meu primeiro aniversário em terras estrangeiras.

Comemorações

As festividades tiveram início na sexta-feira do dia 3 de setembro, quatro dias antes da data oficial. Dispensando os avisos de que celebrações antecipadas não trazem sorte, de sexta a domingo comemoramos muito mais que um aniversário: o fim do verão, o início de novas aulas, a ida de Chiara e de Almudena, um intercâmbio que passa e não volta.

Sexta-feira, 3

A idéia do fim-de-semana era experimentar algo legitimamente inglês, o “pub crawl”, que nada mais é do que uma maratona por pubs.

Na sexta-feira, começamos a noite no bar e restaurante Haha (nome engraçado, né?). Chiara me explicou tudo sobre Berlusconi, sobre a luta italiana na expulsão dos imigrantes ilegais, enquanto dividíamos uma boa cider. Lá pelas 23h, cruzamos a rua até o também bar e restaurante Beluga (nome engraçado, né? [2]).  

Beluga é um lugar muito legal! Às sextas-feiras, só toca ritmos como funk e soul. Nada de bate-estaca! Enquanto o DJ seleciona as músicas, ao seu lado um músico improvisa no saxofone e na percussão. Com uma decoração barroca e rococó (!), o bar é cheio de poltronas macias, a “pista” de dança é iluminada (benza deus!) e você tem o andar superior, que é um deck, caso não esteja afim de dançar, interagir, etc. E melhor: não se cobra entrada, não há couver artístico, não há consumação mínima! Beluga e companhia são 10.

Acabou Beluga, seguimos para o Karma Kafe (nome engraçado, né? [3]). A trilha sonora também era muito legal, música anos ’60 e ’70. Quando perdemos o interesse, seguimos para o fatídico Shochu, na esquina da minha casa, com seus indefectíveis “três gatos pingados e você” e eu abandonei a missão. Sábado era um novo dia.

DJ e improvisos no sax e na percussão em Beluga.

Sábado, 4

As festividades no sábado começaram com um almo-jantar na casa de Chris, um amigo em comum desde o meio do verão. Chiara, italiana, decidiu cozinhar nhoco frito e pasta. Qual não é a minha surpresa ao ver que nhoco frito é o nosso pastel, em versão inteiramente italiana! Entrada deliciosa, fomos para a pasta, um penne arrebatador. Todos preparados para iniciar a noite!

Decido ir ao banheiro e, quando volto, a casa está às escuras.

– Aya, por que você ta nesse escuro, melhor acender a luz.

– Não, Chris disse que prefere assim.

Deu meio medo da frase. Fui logo à sala para acender a lâmpada de lá também, quando fui pega de surpresa por um bolo em forma de centopéia, cheio de velinhas, um parabéns pra você em inglês, assim, no primeiro bolo surpresa da minha vida.

Que lindo! Quase fiquei emocionada. Comemos um pequenino pedaço de bolo (haviamos sido arrebatados pelo penne) e saímos em direção aos pubs.

O roteiro foi o quase o mesmo da noite anterior, com algumas inserções: além dos da sexta à noite, fomos a um bar que fica numa cripta medieval, Bedfords, onde tocava música latina, e a um restaurante espanhol, Tapas. Ao sair de lá, Chiara idealizava: “preciso casar com um latino, preciso casar com um latino…”

Domingo, 5

Domingo foi um dos dias mais legais! Decidimos fazer pique-nique. Às 13h, nos reunimos às margens do rio Wensum, de costa para a Torre medieval, de frente para a Catedral e debaixo de um sol muito morno para comer sanduíches, muffins, crisps, muitas crisps, o bolo do dia anterior, suco, cider

Depois, ficamos estatelados por horas naquela grama quente, o sol se afastando, a gente arrastando as toalhas de pique-nique para onde o sol ia, até que ele foi de vez. Era hora de ir para casa.

Presentes

Sim! Além de um fim-de-semana super, ainda ganhei muitos presentes!

Chiara: me deu uma linda agenda de capa preta, meu sonho sempre (uma vez que todos os caderninhos têm desenhos, corezinhas, sendo uma raridade encontrar algo simplesmente preto). Mas Chiara me deu uma agenda especial: ela imprimiu fotos de nossos “best moments” e colou no início de cada mês. Para que, a cada vez que eu folheie o caderno em 2011, esse nosso verão me venha à memória…

Ayano: Um lápis com desenhos de Peter Rabbit, com um chaveirinho do próprio coelho, comprado em Lake District, conhecido por ser o local onde Beatrix Potter escreveu muitos dos contos sobre o coelho mais famoso do mundo. (óhn!)

Chris: Um copinho fofo da coca-cola (eu queria um da sua coleção de copos Disney, mas Chris é muito egoísta).

Chiara e Ayano: uma caneta liiiiinda, própria para ser utilizada numa eventual entrevista com a Rainha. É toda em brilhante, tem um lacinho, com pequenos strass… um charme.

Abaixo, uma galeria de fotos.

*A galeria pode ser controlada manualmente. Passando o mouse na base de cada foto, aparecem os botões de stop, avançar e voltar.

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Depois de um final de semana adorável, era hora de fazer as malas. Na quarta-feira, uma viagem para Estocolmo começava.

Mas isso é assunto para outro post. 😉

A noite do fail

Quando Ayano, Hussam e eu saímos na sexta-feira do dia 16 de julho não ambicionávamos mais que um momento de descontração num pub com jardim.

Dirigimos-nos ao Playhouse, muito legal, mas sempre concorrido. Sem mesas do lado de fora, perdemos o interesse e decidimos trocar de bar.

Logo na porta, encontramos Almudena, com seu característico cachecol vermelho brilhante. Vendo-a sozinha, situação mais que incomum, convidamo-la a juntar-se a nós.

– Não, vim encontrar um amigo.  

– Amigo? Que amigo?!

– Ele.

Do lado contrario, lá vinha um moço inglês com os cabelos ruivos dos escoceses, sozinho também, vestido para caçar com sua camisa azul meio aberta no peito.

Almudena nos apresentou Will. Tão sem-graça quanto nós, ela se esforçava em mostrar que ele era só um amigo e não o cara com quem ela tinha marcado um encontro secreto, o qual tínhamos acabado de estragar. Para provar tudo isso, ela resolveu seguir com a gente para o próximo pub.

Começa a noite.

Optamos por um pub irlandês, muito legal. Só o Will não era legal. A cada vez que ouvíamos um pedaço da conversa entre Almudena e ele, era sobre alguma ex-namorada. Ou sobre a mãe dele.

Do lado de fora para um cigarro, Hussam, da Arábia Saudita, inspirado pela atuação de Almudena no campo amoroso, explicava sua teoria para que as mulheres sejam valorizadas: não beijar, não ficar, não dar. Ignorar.

Como Hussam é um cara compreensível, fui mostrar o meu ponto de vista. Por que fui fazer isso… Aya, do Japão, ficou chocada ao saber que, no Brasil, a gente beija na boca sem namorar. Deu um gritinho abafado quando expliquei que é impossível namorar alguém sem beijar antes! Que a gente beija as pessoas por uns três meses antes de namorar. Que ninguém começa a namorar sem fazer esse pequeno teste de forças antes.

Ela ficou corada, levou a mão na boca, riu histericamente. Imaginei Aya numa revistaria no Brasil, com publicações como Nova e Cláudia e suas chamadas de capa: “Dar ou não dar na primeira?”

De volta ao recinto, Will continuava o relato sobre suas ex-namoradas. Almudena parecia um pouco entediada nesse momento. Hussam e Aya descreviam o casamento em seus países.

Chiara e o namorado então chegaram para dar força aos meus argumentos sobe beijar, explicando que na Itália as coisas funcionam mais ou menos como no Brasil. Mas jurou de pé junto que na Itália não tem viado. Tipo, na Itália! Hussam disse que os gays no seu país não são apedrejados (sim, eu perguntei) e que eles podem viver juntos, mas não casar. Daí, começamos a falar da Argentina, da liberação do casamento gay, do Papa…

Mas, Will continuava falando das suas ex-namoradas. Juro! Não estou exagerando. Almudena ficou tão entediada que me chamou para a conversa.

– Keila, a ex-namorada dele mora no Canadá.

Para tentar cortar aquele assunto, falei que namoro que tinha um oceano no meio não dava certo, que era bom mesmo que tudo tinha acabado e que era melhor ele arranjar uma garota perto dele.

– Nossa, minha mãe me fala a mesma coisa.

Tipo, de novo a mãe.

O pub irlandês se mostrava muito agradável. Na trilha sonora, Frank Sinatra, U2, Beatles e Elvis Presley, tudo misturado. Foi admirando a trilha sonora que me surpreendi quando começou:

Turnround…

“Nãaaaao acreditooooo”! A expressão máxima do brega americano dos anos 1980, o melodramático, contundente e performático Total Eclipse of the Heart, o hino de Keila Guimaraes, Heitor Botan e Ticiane Toledo tocando aqui, em Norwich, e eu numa mesa onde ninguém sabia cantar!!!

Não pensei duas vezes. Ao ver uma mesa com duas garotas se acabando em cada verso, me juntei a elas, no melhor estilo latino, que invade lugares e abraça pessoas só porque está emocionado. O bom é que, bêbado, todo mundo – até os ingleses – é meio latino.

Acabou a música, eu pedi para a gerente do bar voltar a song, mas ela disse que não rolava. Ok, entendo.

Então, nosso amigo turco Oral chegou e completou a série de ironias daquela noite.

Tão logo ele sentou-se à mesa, tão logo Will esqueceu todos os problemas com suas ex-namoradas. Tomou Oral para si como quem toma um tesouro e iniciou com ele um diálogo particular, ao qual nenhum de nós tinha acesso.

Hussam e eu começamos a achar aquilo suspeito. E a ficar com pena de Oral, que estava animado, acreditando estar exercitando o inglês com um nativo. Mas, aí Will disse para ele que a coisa mais bonita num homem era a boca e a gente não suspeitava de mais nada.

Não sei se porque ríamos como hienas, ou se porque tinha bebido além da conta, mas Will resolveu deixar o recinto, sem mais.

Ao deixar a mesa, Oral, alheio a tudo que acontecia, virou-se para nós com grande entusiasmo:

He is so nice!!

Nós, num coro:

– Oral, ele é gaaaaaaay!!!

Oral ficou ofendido. Duvidou. Argumentou. Refutou. Mas, vencemos.

– É, ele disse mesmo que eu era bonito…

Na volta pra casa, não acreditávamos nas ironias daquela sexta-feira. Presenciamos o encontro romântico-secreto de Almudena com o cara mais estranho da cidade que, no final da festa, se apaixonou pelo nosso amigo.

Era, definitivamente, a noite do fail em Norwich. 

Com Almudena e Salem, no Irish Pub, mas na semana anterior.

Com Hussam e Oral.

I don’t know why you say goodbye, I say hello!

Com a grama recém-cortada, espalhando joçá para as toalhas de pic-nic, o Chapelfield Park recebeu uma série de shows no sábado (10). E eh sobre o último deles que eu quero falar: a apresentação da banda The Magic of The Beatles, para comemorar os 50 anos da criação do grupo original.

Por esse nome, óbvio que era uma banda cover dos Beatles. E, quando falo cover é cover mesmo! Eles imitavam até o sotaque dos cantores!

O show começou às 20h15 com o dia ainda claro, sol, e com muita, muita gente estatelada na grama. Eu me senti numa miniatura de Woodstock, de Hide Park com Paul Mcartney, de anos 60, 70 e 90, misturados de maneira caótica.

No palco, cantores com aquele terno típico do começo da banda, quando eles ainda faziam a panca de bons moços e cantavam sucessos que levaram garotas a enxergar o máximo de sensualidade em frases como “let me be your man”.

A interpretação era impecável. Do site da banda, extraí um trecho que narra exatamente a cronologia da apresentação, do modo como eu vi:

“O show busca recriar os quatro maiores momentos da carreira dos Beatles: começa com a histórica aparição do grupo no show Ed Sullivan, passa pelo “Hard Days Night”, e continua com a primeira aparição da banda no Shea Stadium (nos EUA, onde, de tantos gritos, não se ouve UMA música dos cantores). A platéia acompanha, então, canções memoráveis dos álbuns Sgt. Pepper e Magic Mystery Tour”.

Abaixo, um vídeo da banda, para vocês conhecerem o vocal, a sonoridade… embora o ângulo de filmagem não seja muito bom, rs. Mais vídeos, aqui.

O sol foi se pondo enquanto a banda mostrava sua playlist de sucessos memoráveis: Lady Madona, All My Loving, Get Back, Revolution, Back in the USSR, Don’t let me down, Hey Jude, With a little help from my friends, etc, etc, etc.

Ou seja: quase morri de me esgoelar! Pulando de um lado para outro, me esqueci do amigo que me acompanhava: Hussam, garoto muito gente fina, da Arábia Saudita, que não estava curtindo muito aquele repertório.

Eu, independente que sou, disse várias vezes que ele poderia me deixar sozinha, que eu era boa em sobreviver sem companhia. Mas, educado que é, ficou ali, observando a multidão. Estava achando muito estranho ele não cantar, não dar uma dançadinha, nem na famosa Love me do.

No meio do show, ele vira e me diz:

– Você gosta mesmo dessa banda!

O dessa banda soou estranho. Como assim, esse pronome demonstrativo para falar de Beatles?

No meio da apresentação, tocou alguma música que não sei o nome.

– Ah, que chato, essa eu não conheço, disse.

– Às vezes, é nova, me respondeu.

(…)

A frase de Hussam demonstrou que ele não estava entendendo mesmo que aquela era uma banda cover do grupo mais famoso do planeta! E não o show da banda original!!! No entanto, fiquei muito sem-graça para conseguir explicar o mal-entendido.

Fiquei imaginando Hussam, na segunda-feira, contando em sala sobre seu final de semana: “ah, foi legal, acompanhei uma amiga no show de uma banda legalzinha, chamada Beatles.”

Após o choque, voltei ao show, que foi ficando mais e mais maravilhoso. Como previ, a apresentação foi encerrada com Hey jude, clássica, mas sempre linda e comovente. A essa altura, o sol já tinha se posto por completo.

Findado o show, hora de caminharmos para o Guild Hall e ver uma sessão de fogos de artifício disparados do castelo de Norwich.

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Eu conheci um lorde ali parado no jardim

Numa tarde ensolarada de sexta-feira, com um sol morno muito carinhoso, estive numa pequena festa no jardim de um lorde, daqueles que A rainha pôs a espada no ombro três vezes.

A festa aconteceu no dia 21 de maio, quando o tempo deu uma trégua e o sol apareceu, elevando as temperaturas para além dos 20ºC. Minha host mother, Sheil, me convidou para o encontro, cujo objetivo era arrecadar fundos para a caridade pela venda de livros, bolos, plantas e vinho. Sheil era a responsável pela venda dos vinhos e lá fui eu ajudá-la em troca de muitas taças.

O casal ilustre que nos recepcionava era David e Rosie, Sir e Madam, respectivamente. David, o Lorde, estava numa camiseta azul e numa bermuda cor de creme. Professor de Cambridge, ele é sorridente, parece ser gente como a gente. Rosie, sua esposa, vestia um longo avental. Poderia ser uma dessas donas de casa amáveis que cuidam dos jardins em qualquer filme britânico.

É curioso pensar que eles ainda têm Lordes neste país. E, que fique claro: eles não são (ainda) peças decorativas de uma monarquia cambaleante, mas figuras com certa representatividade política. Dá pra acreditar? Nobres e fidalgos no poder, em pleno ano de 2010!

Há até uma Câmara dos Lordes, que é uma das casas do Parlamento (a segunda é a Câmara dos Comuns, cujos representantes são eleitos pelo voto, democraticamente). Esssa Câmara é composta por nobres de nascença, lordes nomeados a título vitalício pela Rainha (em recompensa de serviços prestados à nação), e bispos. O Partido Trabalhista, claro, quer extinguir a Casa dos nobres, mas me parece que os ingleses se orgulham dessa coisa de monarquia e “pares do reino”.

Voltando à festa: o jardim de Rosie e David era bem dividido: nas laterais, estavam as flores, margaridinhas e tulipas. Ao meio, um gramado amplo, e, quase ao fundo, uma árvore grande dava abrigo para a lojinha improvisada de livros. No canto esquerdo, depois da árvore, uma pequena horta com várias hortaliças, o orgulho de Rosie. Próximo das flores na lateral, estavam os responsáveis pela venda dos vasinhos de plantas, que iam de temperos a mudas de flores. Simples, sem nenhum elemento que apontasse luxo ou riqueza, o jardim tinha aquela aura de “autônomo”, que todos os jardins daqui têm.

Num deck no segundo andar, uma banda, com repertório do leste europeu, deu clima à festa, com um violoncelo poderoso, que música-sim, música-não fazia a sua parte.

Enquanto isso, Sheil estava sentada em nossa banquinha de bebidas. Éramos responsáveis pela venda de vinhos tinto e branco, das cervejas e do suco caseiro, feito das uvas que floresceram no verão passado, ali mesmo naquele jardim. A videira, que deu tais frutos, estava bem acima de nós, testemunhando os “hums”, “hãm” que cada um fazia quando tomava a concentrado bebida.

Depois de passear pelo lindo jardim, fui propor minha modesta ajuda. Para tomar nota: na Inglaterra, não é permitido vender bebida alcoólica sem licença. Então, cada um que comprava um drink alcoólico recebia um tíquete. A estratégia é a seguinte: se um fiscal baixasse ali, o argumento seria que o produto vendido era o tíquete, e o vinho, apenas um brinde da casa.

A tarde foi caindo e era bonito ver todo mundo banhado por aquela luz de pôr-do-sol, com taças numa mão, vasinhos de flores em outra. Enquanto ia admirando a cena, também ia treinando meu inglês: contar as moedinhas, aprender a dar o troco (o money…), compreender diferentes sotaques, ser apresentada por Sheil para cada um que comprava uma taça de vinho e depois ter que lembrar o nome de cada um deles, a perigo de Sheil ficar desapontada comigo. Foi bom para o inglês, bom para exercitar a memória.

No fim da festa, minha host mother veio me mostrar uma planta, que parecia um pé de couve. Eu fiquei toda esperançosa para o jantar, porque eu AMO couve. Mas, ela logo me explicou que de couve aquilo não tinha nada, que do caule se fazia uma sobremesa muito famosa. Fiquei pensando na sobremesa que se é feita com o caule de uma planta que é a cara de um pé de couve, e não me animei muito. Mas, tive que provar depois.

De volta para a casa, fiquei sentindo uma coisa boa na alma, daquelas que a gente sente quando dá de cara com a calma.

Credito: O titulo desse post foi sugestao de Ticiane Toledo        . Ela adora quebrar ideias tradicionais. Ela adora cultura pop.

Balada high school

Esse final de semana (28) começou sem muitas expectativas. Da minha sala, todos os estudantes estão ocupados: Ayano está indo para Londres e Valentina e Ingrid estão estudando para o PET (exame de proficiência de língua inglesa) que acontece na próxima semana. Sem companhia, minha sexta-feira era para ser bem calma. Que notem o grifo: era.

Minha host mother, Sheil, viajou a trabalho – vai passar um fim de semana acampando com um monte de criança. Rwim, sua filha caçula, 18 anos, encerrou o primeiro semestre (agora, os alunos começam os exames). Para comemorar, resolveu fazer um jantar para alguns amigos. Festinha, ahãm.

A programação era a seguinte: os alunos sairiam da escola às 15h e iriam ao pub, onde ficariam até às 18h. Do pub, viriam para a casa fazer o jantar. Belo começo.

Lá pelas 19h, quando ouvi o barulho na cozinha, acompanhado de um cheiro muito bom, resolvi descer e propor ajuda às meninas. Rwim me apresentou seus amigos e ficamos lá conversando. Olhando para eles, entendi de onde saem os filmes de high school. Todos eles são como personagens clássicos de um desses filmes de adolescentes:

Jakie, o bonitão da escola, acompanhado da namorada antenada em moda e que come pouco para manter o corpitcho; Steve, o gordinho engraçado, que todo mundo adora, mas que não pega ninguém; James, o introvertido e que as garotas amam, porque trata todas com carinho; Suzi (ela é a cara da Natalie Portman), meio doidinha, com pendores para o homossexualismo; Katie, a gordinha melhor amiga que sofre porque sempre se apaixona pelo bonitão, mas não é assediada por ninguém; Lilly, numa aura meio rebelde, é daquelas que oferece o primeiro cigarro de maconha para as amigas inocentes, e é sempre justa e leal. E alguns escadas, necessários para que o filme aconteça. Traçados os personagens, vamos continuar no nosso roteiro.

O jantar foi servido e todos estavam calmos. Como pareciam um pouco sóbrios, resolvi subir para o meu quarto, a fim de esperar que o consumo do álcool tornasse aquele encontro mais dinâmico.

Duas horas depois, retornei. Na sala, numa alegria incontida, todo mundo queria conversar, interagir, ter contato físico. Na cozinha, uma versão meio funk, meio rap de “when I get older, losing my hair, many years from now…” ratificou o clima inglês daquela festinha. Garrafas de vodka e de refrigerante enfeitavam o ambiente, o que me fez concluir que o consumo de Askov com Coca-cola por adolescentes é meio universal.

Todos já estavam bem mais que alegrinhos. Um garoto começou a me falar, por horas e horas, de sua futura viagem a América do Sul e seu desejo de conhecer a floresta amazônica. Molly e Lilly contaram que fizeram um bolão para a Copa e apostaram no Brasil (não achei um momento propício falar da escalação de merda do Dunga) e Katie e eu ficamos discutindo quais eram nossas músicas preferidas dos Beatles. Quando ela mesma cantarolou Hey Jude, ficou emocionada. “Essa música me dá vontade de chorar”, disse. Ela não entendia que não era a música que gerava esse efeito, mas a quantidade de álcool ingerida.

Música alta, garotas dançando, garotos dislexos que, por não saber o que fazer, fazem idiotices, mesas e cadeiras arrastadas, pista de dança improvisada, gente ameaçando ir dançar na rua – mera semelhança com as festas juvenis no Brasil são mera coincidência.

De repente, não mais que de repente, alguém dá a bela idéia: vamos pra balada! Meninas desatam a correr escada acima, retocar a maquiagem, pegar o salto alto e botar a sapatilha na bolsa (todo mundo leva uma sacolinha com o sapato baixo, na maior moral, para a volta da balada – lembrem-se: são adolescentes).

O pior de tudo isso: eu fui junto! Mas, é que àquela hora, me parecia uma boa ideia… Afinal, numa terra estranha, o objetivo é provar o novo, mesmo que isso exija doses significativas de bom humor.  

No Henry’s Bar (que eu sempre soube ser um pub), começava o inferno na terra: o lugar mais “divertido” da balada era uma tenda minúscula, de cara para os “djs”, onde todo mundo empurrava todo mundo. Você estava dançando e, de repente, quando fulano ia sair da tenda, você saia junto. Era quando você percebia que não tinha estado pisando no chão, mas sim suspensa entre dois corpos.

Os djs não conseguiam tocar uma música com um compasso de “um-dois-três-quatro” ou de “um-dois-três”. Sendo assim, dançar era impossível! Achei um “chiqueirinho”, bem ao lado da caixa de som, onde eu tinha 15 cm para me movimentar e amaldiçoar os djs por aquelas músicas (a mais requisitada era uma cuja letra toda era: “I like, I like, I like it”). 

De repente, a música parou. A balada tinha acabado! Assim, sem mais nem menos! Daí, como final de festa é sempre o mesmo, Rwim ficou brigando com o namorado, todo mundo se despedindo e uma galera indo comprar comida – não em carrinhos de lanche ou numa pizza 24h. O lanche é fish & chip! Muito original, rs.

Caminhando com Jessie, Suzie e outra colega, cheguei em casa às 3h30. Noite longa ao rei!

Enfim: continuo firme em minha missão de experimentar o que há de mais inglês nesta terra. No próximo post, detalhes sobre uma festa no jardim de um Lorde.