Entrevistas? Só depois do discurso da rainha

Contato um setor do governo inglês pedindo uma entrevista. Eles retornam a ligação:

– “Sim, claro, podemos te ajudar. Mas precisamos esperar”, eles informam.

– “Esperar o que?”

– “O discurso da rainha”.

Pois é. Depois das eleições, a rainha vai na Casa dos Lordes e dá às boas vindas ao novo Parlamento. E só então os órgãos públicos podem fazer anúncios, o que inclui dar entrevistas.

A tal boas vindas acontece assim: a rainha sai lá de Buckingham Palace numa procissão até Westminster, onde fica a sede do Parlamento. Há todo um código de vestimenta: ela usa a coroa do estado imperial e o robe do Estado.

Ela faz um trajeto rígido, passando por salas específicas. Quando chega na câmara da Casa dos Lordes, o oficial da Casa vai então chamar os Comuns – ou seja, os políticos eleitos pelo povo -mas os Comuns fecham a porta na cara do oficial!

Soa dramático, mas é tudo coreografia. A porta na cara é reminiscente da Guerra Civil inglesa, no século XVII, e simboliza a independência do Parlamento, eleito pelo povo, da monarquia.

O fato é que eu precisarei esperar até o fim de maio, quando a rainha terá feito seu discurso – que, na verdade, é escrito pelo governo -, para ter a entrevista que preciso do tal órgão do governo inglês.

Eu ficaria chocada, não fosse o fato de, na minha última prova de jornalismo, haver uma seção inteira sobre que perguntas eu faria para a duquesa Kate… numa entrevista sobre a princesa recém-nascida.

Eu tenho medo do Mesmo

Foi durante a faculdade, numa das maravilhosas aulas da professora Miriam Puzzo, que conheci um erro muito comum da língua portuguesa: o uso incorreto do adjetivo/pronome mesmo.

A professora Miriam,  nossa Pasquale Cipro Neto muito mais avançada nos conhecimentos da língua, explicou de modo sucinto que as palavras mesmo/mesma nunca, em hipótese alguma, podem ser usadas como equivalentes a um substantivo.

E tal qual o Bob, do desenho animado dos anos ’90 O Fantástico Mundo de Bob, demorei um tanto para entender aquela frase quase enigmática:

Mesmo só pode ser usado como adjetivo, não como substantivo”.

Foi quando entrei no elevador do meu antigo prédio e, ao ler o aviso aos usuários, compreendi o significado daquele enigma:

“Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”.

Caramba, quem é o mesmo? Que cara tem o mesmo?! Será que o mesmo morde? Que será que acontece se eu abrir o elevador e o mesmo aparecer aqui?

Apavorante.

Tão medonho que surgiu uma comunidade no orkut e um grupo no Facebook, “Eu tenho medo do mesmo”,  título que dá nome a este post.

Essa revelação durante a faculdade mudou a minha vida.

Quantas vezes, indiscriminadamente, não criamos monstros e entidades paralelas nos nossos textos ao colocar na roda dos substantivos este tão útil adjetivo? Quantas vezes não subvertemos o seu significado, quantas vezes não amedrontamos seres frágeis diante de um elevador com avisos gramaticalmente apavorantes?

Esses dias, recebo o email de um site de compras.

“Para que você possa postar o produto é necessário que o mesmo esteja bem embalado em uma caixa, envolto com papel pardo ou papel branco…”

Pensei: mas, moça, não veio nenhum mesmo com o produto…

A essa altura do post, você, que a vida inteira passou ouvindo e/ou escrevendo mesmo quando queria evitar a repetição do substantivo, achando que aquele significaria esse, pode estar bem cético. Poderia o mundo inteiro estar errado e só a professora Miriam Puzzo, certa? Seria possível que o mesmo não exista?

Ele existe. Assim:

“Esse é o mesmo elevador de ontem.”

“Coloque o produto na mesma caixa na qual foi enviado.”

“Essa dúvida é a mesma de todo mundo.”

E é classificado como substantivo pelo Houaiss assim:

“Procurou porque lhe disseram que ainda era o mesmo.”

“Viajar ou não era o mesmo para ele.”

“Isso é o mesmo que lhe dizer não.”

Espero que esse post ajude a colocar o mesmo no seu devido lugar. 😉

Bules de vitrine

Nada soa mais britânico do que uma xícara de chá. Restrito às pessoas de sangue azul no século XIX, o hábito foi cooptado pelos plebeus e hoje é bebida indispensável em qualquer residência deste país.

Não pensem vocês que o mate está destinado apenas a velhas senhoras que jardinam o dia todo. É quase cômico ver aquele cara bronco chegar no mercado municipal, bater a mão no balcão e pedir com voz gutural:

 – A cup of tea, please.

Sempre acompanhado do please, ok? Porque nada é mais british do que dizer please. Mais britânico até do que indeed.

Não raro nos pubs vemos jovens garotos, cheios de energia, degustarem uma xícara do mate. Sempre com leite, é claro.

Pensando nesse fascínio dos ingleses pela bebida, a loja linda-fofa White and Stuff iniciou uma campanha baseada em… aparatos para o chá! Não sem uma pitada de charme: nas vitrines, bules dos mais variados modelos recebem uma capinha de tricô: de abelha, de joaninha, de marshmellow…

A campanha, entitulada Put the kettle on (algo como “Ponha a chaleira no fogo!”), é um charme só. Vejam: 
I love tea!

A abelhinha.

A joaninha.

Formatos malucos.

Já disse hoje que amo esse país, ops, tea? 😉

Língua de Luís de Camões

 Flor do Lácio, sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer, o que pode essa língua?

Para mim, cada idioma tem uma beleza. Um ritmo, um tom, uma cara. Um idioma molda a boca da gente. Falar é uma questão muscular. Mas, para mim, não há língua mais bela que a língua portuguesa.

Em 2008, Príncipe e eu estávamos num ônibus na Espanha, partindo de uma vilazinha qualquer na Galícia. Só havia mais dois passageiros: uma senhora, acompanhada do netinho. O príncipe e eu falávamos animadamente naquele ônibus vazio, quando ela lhe cutucou o braço e perguntou:

– Mas, que língua é essa que soa tão bonita aos ouvidos?

***

Não é diferente aqui. De vez em quando, temos um exercício em que, no final, somos convidados a falar uma das frases em inglês em nosso próprio idioma. Nunca passa impune uma sentença dita em português. Eles ficam surpresos, principalmente os ingleses.

– Como é suave. Fala de novo, insistem.

Enquanto os espanhóis tem aquele “r” marcado, os italiaaaaanos fálam tôodo arrastááádo. Quando minha amiga termina um diálogo em italiano, pergunto: “Tudo bem?” Tenho sempre a impressão de que ela estava tendo uma discussãozinha.

Em sala, num exercício sobre “suas habilidades”, certa vez me perguntaram:

– No que você é boa?

– Em língua portuguesa.

– Mas isso é óbvio. Você fala português desde que nasceu.

– Mas não é só falar. Tem a gramática. Na faculdade, por exemplo, gastamos um bimestre só estudando vírgulas…

Não expliquei para ela o valor de uma elipse, de uma elisão, de uma aliteração, de um vocativo. Isso tudo faz do português uma língua que me enche de prazer.

Temos muitos sons, também, não sabia quantos. Os italianos, por exemplo, não conseguem falar “home”, “hungry”. Falam “ome”, “angry”, porque não têm, na língua italiana, os sons de “rra”. Embora no inglês, o som de “rra” esteja na letra “h”, o brasileiro conhece esse som. Ele pode pronunciá-lo.

Os japoneses se embolam com o “v”, com o “r”.

Os espanhóis sofrem com as nuances do inglês. Não vêem diferença entre “food” e “foot”. Entre “clothe” e “close”. Acham um parto pronunciar os verbos no tempo passado, como “finished” ou “watched” ou mesmo encontrar o ritmo da nova língua. Eles sabem o porquê:

– O inglês é cheio de sobe e desce. No espanhol, você começa a frase e termina, não precisa dessa variação.

No português, a gente é cheio de sobe e desce. A gente sabe muitos sons.

Adoro explicar o valor de uma sílaba aqui. Me perguntaram uma vez o que se dizia na hora do brinde no Brasil. Eu parei tudo para escrever a palavra “Saúde!” e explicar a primeira coisa que aprendi sobre a língua portuguesa: de que tudo nasce da junção entre uma vogal e uma consoante. Sou uma entusiasta das vogais, essas cinco letrinhas que tornam tudo possível.

Aprender outro idioma é definitivamente fazer as pazes com o seu.

Brasil para estrangeiros

Nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda, meu bem…
(Rita Lee e Z. Duncan)

 – E no Brasil, que língua vocês falam?
– Português.
– Não é espanhol?
– Não, é português.
– Mas, na América do Sul toda fala-se espanhol.
– Mas, no Brasil a gente fala português.
(cara de desconfiado do interlocutor)
– É que a gente foi colônia de Portugal. Aprendemos português.

***

– Você é de qual região do Brasil?
– Do sudeste, cidade próxima a São Paulo (mostro no mapa-mundi da sala, apontando para as cinco regiões que formam o país e digo alguma particularidade de cada, para que eles entendam melhor).
– Mas, deve chover muito na sua cidade, por causa da floresta amazônica.

***

– E a capital brasileira, o Rio de Janeiro?
– Rio de Janeiro não é nossa capital.
– Não?
-Não. Nossa capital é Brasília.
– Não… A capital é o Rio de Janeiro!
(Eles são muito convictos).
– Não, não é. Foi capital no passado mas, nos anos 1950 um presidente chamado Juscelino Kubitschek…

***

 – Oi, então você é brasileira?
– Sim.
– Mas, você não sabe dançar!
(…)
– Você mora em favelas?
(…)

***

Se for homem:
– Você é do Brasil?
– Sabe sambar? (Frase sempre acompanhada de um sacolejo de corpo bem constrangedor).

***

Se for mulher:
– Você é brasileira?! Me ensina a sambaaaaar?

Trombo com um desses diálogos todas as vezes que me apresento a alguém. Eu disse todas as vezes, invariavelmente. Seja europeu, asiático ou do Oriente Médio. Eles têm uma relação quase folclórica com o nosso país. E nada, nada do que pensam sobre o Brasil é motivo para eu me orgulhar.

Tomada por profunda irritação com tanta desinformação, me imbuí de uma missão de dar inveja a qualquer jesuíta: arrancar dessas cabecinhas todas as idéias sobre o país tropical e incutir algumas novas ideias sobre uma outra parte de nós.

Minha missão se concentra em alguns pontos principais, a saber:

 1)  O carnaval, maldito carnaval, é uma festa que abrange todo o país, sim, mas o espetáculo carioca, tão famoso, é uma festa do estado do Rio de Janeiro (mostro no mapa sua pequenez em comparação ao resto do país). Cada cidade tem sua comemoração, mas o mais importante nessa festa é o espírito de festividade que reina. O desfile de mulheres peladas é uma celebração cara, destinada a pessoas com muito dinheiro.

2)  Nossa economia não é baseada no carnaval, nem no verão. Somos os maiores produtores de café do mundo, produzimos etanol, temos o maior rebanho comercial de bovinos, estamos entre os três maiores exportadores agrícolas, e, se o fato de depender de commodities não é muito louvável, também somos um bom centro comercial para a indústria automobilística, produzimos aviões, vamos explorar petróleo… (que fique claro, conterrâneos: não que o Brasil seja uma maravilha de prosperidade. Mas, preciso jogar pesado!)

3)  A gente tem inverno, sim. Há lugares no Brasil onde até neva! Na minha cidade, por exemplo, todo inverno registramos geada… (Para cada ser que me fala “Brasil é só verão!” tenho vontade de botar o cidadão num biquíni e enviá-lo para São Paulo num dia de frio.)

4) Samba não é uma preferência nacional.

5) Não somos uma nação de dançarinas.

6) Salsa e tango não são ritmos brasileiros.

Dizem que o brasileiro, quando cruza uma fronteira, vira o mais patriota de todos. Pode ser. Mas, de fato, é muito constrangedor ver que em todo o velho mundo o Brasil tem uma só cara. Quem pintou, eu não sei. Mas, aposto que aqueles sociólogos eurocentristas, que adoravam encontrar algo excêntrico para enfeitar a sala de casa, possam ter colaborado com a construção dessa idéia.

Também não nos isento de culpa. A indústria nacional do turismo insiste em colocar uma mulata em trajes sumários nas capas dos pacotes de viagens e dizer que somos o país do carnaval.

Quando vem um cidadão e me fala: “quero conhecer a Amazônia!”, logo digo:

“Ah, mas então me faça o favor de ir para o sudeste também, se não você vai voltar achando que a gente é só uma selva”. Porque você imagina um europeu numa terra do tamanho da Inglaterra e da França juntas – vai achar que conheceu o Brasil inteiro!

A convivência com idéias tão distintas sobre o nosso país também me fez aprender algo novo: nunca, nunca mesmo achar que se conhece um lugar pela sua característica mais marcante. Muito se perde em generalizações.

Autores improváveis

Thanks, querida Pollyana Ribeiro, pela ideia do post. 

Minha primeira aversão ao plágio se manifestou quando eu tinha 14 anos. Estava na praça de São Francisco Xavier e com uma colega muito agitada. Ela tinha um encontro dali a pouco e havia escrito uma carta para o namorado. Uma carta. Êba! Sempre amei cartas! Na verdade, era mais: um poema! A colega me chamou de canto e mostrou sua obra-prima:

“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente.”

Li, reli… eu não sou uma conhecedora profunda de Fernando Pessoa. Mas, pôxa, tive literatura na escola!

Pega naquela trapaça infantil, ela fez-me jurar que não contaria nada a ninguém. Eu jurei e nunca contei. Porque era um caso privado. No fundo, uma declaração de amor. Seu namorado nunca repassaria o poema, dizendo, por sua vez, que era seu. O ciclo seria fechado, sem possibilidade do poema de Pessoa passar de mãos em mãos, num insulto à obra do poeta.

Diferente desta história há um movimento incompreensível na internet: o dos que adoram subverter créditos.

Incrédula com a presença de tantos autores clássicos em minha caixa de entrada, criei uma obsessão: achar os créditos corretos dos textos de pps e de congêneres que chegam ao meu e-mail.

Na lista abaixo, os verdadeiros autores de crônicas rodadíssimas na rede, que chegaram à minha caixa de entrada e de onde, algumas vezes, sairam com créditos errados:

  •  Bastidores (Quando um homem chama uma mulher para sair, não sabe o grau de estresse que isso desencadeia em nossas vidas…) –  blogueira que se apresenta sob o pseudônimo Sally. 
  • Dar não é fazer amor (Dar é dar. Fazer amor é lindo, é sublime,é encantador, é esplêndido, mas dar é bom pra cacete…) – Tatiane Bernardi, e não Luiz Fernando Veríssimo
  • Use Filtro Solar (Se eu pudesse dar uma só dica sobre o futuro,seria esta: use filtro solar…)– Mary Schmich, e não Pedro Bial. Nome original: Advice, like youth, probably just wasted on the young.
  • Eu sei, mas não devia – Marina Colasanti
  • Relacionamentos – Martha Medeiros, não Miguel Falabella
  • Aprende (Um dia a gente aprende a diferença a sutil diferença…) – Nome original: After a While. Veronica Shoffstall, e não Willian Shakespeare. Tem uma explicação muito legal sobre esse texto aqui.
  • Ode à bunda dura (Tenho horror de mulher perfeitinha, Odeio qualquer uma que fique maravilhosa num biquíni…).– Ailin Aleixo, e não Arnaldo Jabor
  • Não nos contaram (Fizeram a gente acreditar que amor de verdade só acontece antes dos 30…) – Martha Medeiros, e não John Lennon.
  • Recomeçar (Não importa onde você parou… Em que momento da vida você cansou…) – Paulo Roberto Gaefke, e não Carlos Drummond de Andrade.
  • Vida (Já perdoei erros quase imperdoáveis, tentei substituir pessoas insubstituíveis...) – Augusto Branco, e não Charles Chaplin.
  • Currículo Vitae (Eu já dei risada até a barriga doer, já nadei até perder o fôlego, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado…) – Julliana Spadotto.
  • A dor que mais dói (Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói) – Martha Medeiros, e não Miguel Falabela (de novo…)

 Alguém, com a mesma implicância que eu, até criou um blogAutor Desconhecido – Para provar que autor desconhecido não existe”. É interessante porque a autora traz o caminho percorrido pelo texto, do original ao plagiado, que, no fim das contas, pode vir cheio de pontos de exclamação, transformado em poema, e enxertos mais. Vale dar uma checada toda vez que você receber aquela mensagem atribuída a Charles Chaplin ou a Gandhi.

Veja essa pequena crítica feita pela autora do blog, Vanessa Lampert sobre os plágios com os textos de Martha Medeiros (com certeza, a mais plagiada da Internet).

 Nem Mario Quintana, nem Arnaldo Jabor

 O texto que circula com o título “Sentir-se Amado” na verdade é uma deformação do texto da Musa do Autor Desconhecido, Martha Medeiros (eu ainda vou descobrir qual é o pecado que essa mulher cometeu e que está condenada a pagar para sempre), publicado originalmente em sua coluna no Site Almas Gêmeas. Cúmulo da degradação da espécie, esse texto (alterado, picotado e distorcido) tem versão em Power Point com “Endless Love” tocando, bregamente, ao fundo. Não acredito que alguém consiga cometer um pecado imenso o suficiente para merecer tal penitência, acho que Martha Medeiros tem um Encosto Desconhecido que altera, deliberadamente, todos os seus textos. A criatura tem toda a lista das crônicas do Almas Gêmeas e se acha “A” artista ao alterar, um a um, com requintes de crueldade. Aí vai, como de praxe, o texto original, e em seguida, a aberração que o persegue (…)

Aqui, texto de Martha Medeiros, sobre o saco que é ser constantemente plagiada.

Entao, voce, leitor responsavel: toda vez que receber um texto daquele autor improvavel, desconfie. 

Porque não é todo dia que Shakespeare bate a porta da sua caixa de entrada, ok? 😉

Eu que não como chocolates

Um dos meus filmes preferidos (não me xinguem, eu gosto!) é Chocolate, de Lasse Hallström, com Juliette Binoche e Johnny Depp.

Assisti pela primeira vez há uns oito anos, mas revi-o num dia de insonia, um mês antes de vir para cá. E gostei mais ainda. Porque se passa num vilarejo encrustado na montanha, porque fala do vento que sempre nos leva e que pode nos trazer de volta, da importância de nunca amargar-se com a moral, de deixar o amor chegar, de tentar fazer a vida sempre doce.

Fazer a vida doce não é fácil. Aqui, como aí, é um exercício diário. Às vezes, a gente não consegue. Busca, tateia, mas não acha a alegria.

É então que a gente corre para o supermercado. E compra uma barra de chocolate!

Não que eu goste de chocolates. Doces, só as trufas que minha mãe faz. De sobremesa, nunca peço nada. Meu amor sabe. Prefiro as entradas e o prato principal à sobremesa. Pudins, bolos, tortas não são um bom arremate.

Nesses meses aqui, no entanto, vou aos supermercados constantemente. Olho um kinderbueno e me encho de dúvida: “Compro? Imagina! Coisa de criança!” ou “Que tal um twix? Melhor não…” E assim escolho o mais baratinho, marca Tesco, mas cujo sabor é inversamente proporcional ao valor em pence.

Hoje, enquanto falava com meu amor via Skype, fui tomada por um desejo repentino de devorar uma barra de chocolate. Me assustei. “O que é isso? Quem é essa? Que sou eu?” Tentei me conter.

Quando vi, estava na porta da loja Tesco Express, nos corredores de guloseimas, com a mão na boca, aflita. “Qual levo, senhor?”

Comprei dois baratinhos. Senti o papel alumínio, abri. “Coisa infantil”, pensei. E é.

Por isso o filme Chocolate é tão doce de ver. Porque é a redenção de cada personagem à simplicidade de degustar um prazer pequeno. De se deixar ir. Deixa ir.

“Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida”

(Tabacaria. Álvaro de Campos. Enviado por meu amor, me permitindo comer quantas barras de chocolate forem necessárias para me alegrar o espirito).

Para quem quiser relembrar do filme, um trailler curtinho. 😉