Um pé no Parlamento, outro no tribunal: os aprendizados de um curso extremamente prático

Em outubro, tivemos duas experiências muito interessantes no mestrado: fomos à Casa dos Comuns, no Parlamento, para um seminário sobre entrevistas com políticos, e reportamos sobre um julgamento, que assistimos ao vivo num tribunal em Westminster.

Uma das primeiras salas de Westminster: paredes de pedra, esculturas, pinturas, vitrais, lustres imperiais. Que parlamento deslumbrante!

Uma das primeiras salas de Westminster: paredes de pedra, esculturas, pinturas, vitrais, lustres imperiais. Que parlamento deslumbrante!

Vestidos de maneira elegante, fomos ao Parlamento para uma atividade prática: três alunos entrevistaram uma Member of Parliament (algo como uma deputada), conhecido aqui como MP.

Meg Hillier, a MP, fez um mestrado em Jornalismo na City há alguns anos e recebeu os alunos em uma sala cheia de quadros e vitrais, com vista para o Tâmisa, para a sessão de perguntas e respostas.

Eu, Alice e Clara olhando para o Big Ben na saída de Westminster

Eu, Alice e Clara olhando para o Big Ben na saída de Westminster

A visita ao Parlamento faz parte de uma atividade muito interessante que temos aqui dentro do módulo Prática Jornalística. Toda semana três estudantes são sorteados para entrevistar uma autoridade local, que vem até a universidade: councillors (algo como vereadores), diretores da polícia, etc.

E isso é muito interessante: toda semana uma autoridade se abala até a universidade e se coloca à disposição de jovens estudantes de jornalismo. As entrevistas são feitas com base em temas elencados pelo professor da disciplina dias antes, duram 15 minutos e são realizadas em frente de toda a sala.

Uma coisa curiosa é o que se segue após a sessão de perguntas e respostas: o entrevistado dá um feedback sobre o entrevistador. Revela quais foram as perguntas mais difíceis, onde o entrevistado poderia ter forçado mais para receber mais informação, onde falhou.

As análises são honestíssimas. Houve alunos que exageraram na dose de agressividade com o entrevistado e o feedback foi devastador. Tudo isso com platéia.

Outra experiência interessante foi a visita a um tribunal, o Westminster Coroner’s Court, dedicado a causas civis. Chegamos lá por volta das 9h, numa manhã de sol, e quase não acreditamos quando vimos a portinhola do tribunal.

“É aqui mesmo?”, nos perguntávamos.

Westminster Coroner’s Court

Os 25 estudantes precisaram ser apinhados no pequeno local, que tinha espaço para não mais que 50 pessoas.

O caso era triste: uma jovem viúva movia ação contra o serviço de ambulância, que demorou 30 minutos para atender a um chamado de urgência.

Aqui, pasmem, as ambulância são dispachadas depois que um questionário dentro de um software é preenchido. De acordo com as respostas, o software é que decide se o caso é emergência ou não. Neste caso, o software ficou variando entre “emergência” e “não emergência”, devido ao conteúdo das respostas.

O fato é que o ex-marido teve um pseudo-aneurisma, devido a complicações de um transplante de rim e de pâncreas que havia feito dois meses antes, e faleceu.

O julgamento foi um desafio para meu vocabulário: teve o depoimento da família, de médicos cirurgiões, de motoristas de ambulância e outros mais.

Também foi triste porque o caso tinha forte carga emocional.

Mas, principalmente, foi enriquecedor ver o incrível trabalho de um juiz, fazendo as perguntas certas para chegar a respostas objetivas. Era como ver um jogo de “Detetive” sendo jogado na minha frente, ao vivo, e de verdade.

As reportagens que tivemos que produzir sobre a visita ao Parlamento e ao tribunal até o momento foram uma espécie de teste e não fomos avaliados por elas.

Neste mês, faremos uma nova rodada de visitas e, desta vez, teremos as reportagens avaliadas.

Amanhã, iremos ao Parlamento novamente. Três estudantes irão entrevistar Emily Thornberry, uma MP do Partido Trabalhista.

Já estou preparando bloquinho, caneta e pensando no figurino. We must dress smartly.

BigBen

Big Ben: a clássica torre que abriga o Big Ben no Palácio de Westminster, onde ficam as Casas do Parlamento

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Primeira semana de aula e todos os medos do mundo

Na última segunda-feira, 22, foi o meu primeiro dia de aula. Os medos eram variados: será que falarei bobagem, será que as pessoas são legais, será que farei amigos, será que será difícil, será que irei para a Grifinória?! Eram muitos sentimentos misturados.

Apesar da ansiedade inicial, a primeira semana foi passando de maneira lenta e intensa, de forma que, quando chegou o último dia, a sensação era de estar boiando em um mar de deadlines. Sim, me toquei, vai ser difícil para caramba. E, sim, vou aprender para caramba também.

As aulas giraram em torno de testes. Analisamos o discurso de diferentes jornais, produzimos reportagens sob a pressão do cronômetro e tivemos a visita de um figurão da indústria, Maurice Chittenden, editor noturno do The Sunday Times. Também houve encontro com ex-alunos, muito vinho branco para quebrar o gelo e até um “assignment”, algo que chocou todo mundo.

Assignment

As semanas introdutórias são conhecidas por sua mansidão. É quando os estudantes conhecem as instalações da universidade, tomam pé da grade curricular e socializam. Nada de trabalhos! Mas meu curso, ficou evidente, será denso.

O primeiro desafio da semana foi encontrar uma organização que fizesse um trabalho relevante, entrevista-la e produzir uma reportagem. Eu entrevistei a Al Madad Foundation, uma fundação que trabalha com crianças refugiadas, principalmente na Síria e no Líbano, promovendo a educação e a alfabetização.

A diretora da organização me recebeu na tarde da última quarta-feira (24) na sede da instituição, que fica na região de Westminster. Descendentes de libaneses, ela cresceu e foi educada na Inglaterra e, além de dirigir a Al Madad, é uma artista que utiliza conflitos políticos com temática. Foi muito interessante ver como uma organização que sabe que não irá mudar o mundo racionaliza ações de ajuda humanitária.

Westminster, uma região muito bonita

Westminster, uma região muito bonita

No caminho para a entrevista, uma passadinha num pequeno parque

No caminho para a entrevista, uma passadinha num pequeno parque

Na quinta (24), data da entrega da matéria, redigi o conteúdo e me senti aliviada por dar conta do primeiro “assignment”, como eles chamam por aqui.

Assim, passou a primeira semana e nada de trágico aconteceu. Só coisas boas.

A partir desta segunda (29), o curso começa para valer. O foco inicial é em prática jornalística. Faremos muitos workshops em produção de jornal e precisaremos redigir algumas dezenas de reportagens durante este primeiro módulo, que vai até dezembro. Somado a isso, teremos aulas de jornalismo de dados e de jornalismo digital. Em janeiro, o foco é em inovação em jornalismo – um módulo no qual estou extremamente interessada.