Acomodação estudantil, uma ótima escolha

Antes de eu me mudar para a minha acomodação, estava muita aflita. As perguntas na minha mente eram muitas: será que todo mundo lava a louça? Será que vai ter alguém pouco higiênico? Será que vai ter gente falando alto até de madrugada?

Somos em sete no apartamento que dividimos e, com uma pessoa com as características acima, o meu ano aqui poderia se tornar um tormento. Mas, após duas semanas aqui, posso dizer que essa foi a melhor escolha que fiz.

Nossa cozinha comunitária - aquela taça de vinho branco, claro, é minha

Nossa cozinha comunitária – aquela taça de vinho branco, claro, é minha

Há pessoas de diferentes países – Bósnia, Índia, Inglaterra, França, Brasil – cursando diferentes cursos em diferentes níveis, em busca de carreiras distintas. Há um engenheiro elétrico fazendo seu PhD, uma advogada formada em Cambridge que quer ser promotora, um graduando em Jornalismo que gosta de rádio, uma francesa que quer ser correspondente no Brasil (yeah!) e assim por diante.

Todos estão na mesma universidade e na mesma acomodação. Elogiamos e reclamamos das mesmas coisas. A sensação é ter com quem dividir problemas e alegrias.

Me sinto muito feliz e acolhida aqui!

Cada vez que vou para a cozinha comunitária cozinhar, encontro alguém. Pergunto sobre o dia da pessoa, ouço sobre o dia dela, sobre o que ela aprendeu, sobre o que está sendo difícil.

Em dias difíceis, é possível encontrar conforto. Nada é mais emocionante do que receber a ajuda de um estranho. Nem que essa ajuda seja alguém te ouvir pacienciosamente.

Houve um dia na minha primeira semana em que havia muitos nós para serem resolvidos. Para culminar aquele dia de estresse, uma aranha desceu do teto e ficou andando no meu computador. Justo uma aranha, esse inseto que me apavora. Eu desatei a chorar porque precisava matar a aranha sozinha e, por um momento, me senti distante de todas as pessoas que me amavam e que importavam para mim.

Mais tarde naquele dia fui à cozinha e encontrei um dos estudantes da casa. Ele é um indiano calmo e tranquilo. Ao me perguntar como tinha sido meu dia, desatei a contar tudo, dos nós a serem resolvidos à aranha que havia andado no meu computador. Ele então passou a me falar dos conceitos espirituais que regem a vida dos indianos.

“Não estamos aqui por acaso. Estamos aqui por algum propósito”, é o que me lembro dele ter dito. Foi como se de repente eu estivesse dentro do filme “As aventuras de Pi”. Era muita sabedoria vindo daquela pessoa que eu mal conhecia e que dizia coisas que soariam tão piegas na boca de uns, mas com tanta intensidade e crença, que me pareceu totalmente plausível tudo o que ele descrevia.

Por essas experiências, é tão legal dividir uma casa com pessoas que você nunca viu. Você vê que o destino tem suas belezas.

Eu, minha acomodação e um paraíso chamado IKEA

Eu moro em uma acomodação estudantil da minha universidade e isso tem prós e contras: algo positivo é que, se você conseguir um lugar na moradia, não precisa chegar aqui e enlouquecer no mercado de apostas que virou o mercado imobiliário londrino. Um aspecto negativo, contudo, é que você chega na acomodação e precisa comprar tudo: de travesseiro a louça.

A tarefa pode ser hercúlea para pessoas como eu, que tenho muitas dificuldades em fazer escolhas e em combinar coisas, mas, neste caso, foi facilitada por um fator que eu desconhecia até chegar aqui: o fator IKEA.

Que paraíso é esse lugar!

Quem me recomendou foi uma italiana, que encontrei no corredor da acomodação. Tínhamos nos falado por Facebook e, quando nos encontramos pessoalmente, surpresa! “Oi, eu sou A Keila!” e “Oi, eu sou a fulana! Que você vai fazer?”, “Preciso comprar itens básicos de sobrevivência”, “Eu também! Vamos na Ikea?!”.

Assim, de bate e pronto, saímos em busca do ponto de ônibus, já muito falantes, em direção ao lugar onde todos os orçamentos são bem vindos. Copo de suco a 35p, taça de vinho a 1 libra, caneca a 50p, pratos a 90p. Realmente uma festa.

O interessante é que, numa expedição assim, você descobre o quanto os seus pais precisaram ralar para comprar a louça de casa. Sobretudo, percebe que tupperware não nasce por geração espontânea e que, se você esqueceu de comprar um kit de potinhos plásticos, não vai ter um kit de potinhos plásticos te esperando dentro do armário. Ah, a dura vida de viver por si e para si!

Você também aprende a diferença, a sutil diferença, entre 5 libras e 20 libras e se dá conta que demorar 50 minutos para encontrar o produto ofertado tem importância.

Apesar da muquiranice, fiz um esbanjamento: comprei uma chaleira! 😀 Ela é linda e, quando a água está pronta, ela apita! Uma sensação.

O objeto gerou curiosidade em casa. Uma inglesa que mora na acomodação, de Liverpool, muito British indeed, teceu elogios a minha aquisição. Aproveitei a deixa para aprender a fazer o chá. Aliás, há segredos – é preciso, por exemplo, mexer o chá em determinado momento, apertar o sachê, deixar a infusão durar por dois minutos. Só depois é que pode adicionar o leite. Agora, tomada de conhecimento técnico, tenho feitos muitas canecas de chá.

Apesar da enorme sacola e de todos os itens baratos e incríveis que comprei na Ikea, a visita não bastou para eu encontrar todos os itens – não porque eles não existiam lá, mas porque eu não tinha um entendimento completo sobre o que eu precisaria de fato. Assim, passei a semana descobrindo os itens que não existiam no meu armário – infalivelmente, na hora que tinha a intenção de usá-los.

A primeira semana passou, portanto, baseada na solução de pepinos, o que incluiu também idas diversas ao supermercado, um aprendizado muito novo para mim, apesar de eu frequentar supermercados há anos. Há certas coisas com as quais temos muitas dificuldades.

Visualizo, contudo, muitos aprendizados aqui, dos mais complexos aos mais simples – como, por exemplo, ir às compras com uma lista que faça sentido.

Como escolher hotéis pela internet

São centenas de sites, milhões de resultados no Google. Nessa pilha cibernética de possibilidades, como escolher uma opção confiável de hotel do qual não há recomendação alguma?

Porque, vamos combinar: a não ser que seja um hotel bacanudo de preço equivalente, o hotel que um viajante modesto procura não ganha resenha em cadernos de turismo.

Mas há hotéis possíveis e interessantes no mesmo perímetro dos superstars. No entanto, é preciso saber procurá-los e avaliá-los. Só assim evitam-se surpresas desagradáveis.

Na internet, testei vários sites e cheguei ao booking.com. Este site é muito legal, porque disponibiliza informações essenciais numa única página de informação, tais como:

– localização do hotel (com código postal), o que permite dar um googlemaps e ver se o hotel realmente fica próximo aos pontos turísticos dos quais afirma estar;
– descrição do hotel,  fotos e facilidades (se há estacionamento, por ex. e taxas);
– descrição e fotos dos quartos (você vê o que compra – não reserva quarto simples pela foto da suíte master);
– críticas/resenhas de outros hóspedes;

Abaixo, página inicial com as seguintes informações: hotéis disponíveis, preços, nota atribuída pelos usuários, descontos e número de quartos disponíveis.

Atenção: essa info é verdadeira – uma vez, fiquei lutando com um sueco por um quarto. Demorei para pegar o cartão de crédito e ele efetuou a reserva primeiro. Tive que recomeçar a busca. 😦

(Clique nas fotos para ampliá-las)

Descrição do quarto com fotos.

Com estas informações em mãos, só é preciso avaliá-las. No quesito localização, como diz Ricardo Freire, do imprescindível Viaje na Viagem, não há mágica – quanto mais barato um hotel, mais modesto e menos bem localizado ele será.

Portanto, nada de ilusões ou de se achar o grande sortudo. Para não sentir-se ludibriado mais tarde, antes de procurar hoteis, dê uma olhada caprichada para o destino onde se está indo.

Ficar num hotel na periferia de Paris ou a mais de 15 minutos do metrô é fria. A regra básica é: pesquise, pesquise, pesquise.

Resenhas

O que o booking tem de mais útil para mim são as resenhas/opiniões/ críticas dos que já passaram pelos hotéis. Essa espécie de fórum indenpendente é peça-chave na escolha da acomodação.

Veja exemplo abaixo:

Em setembro, estava muito feliz com um hotel que tinha encontrado em Paris, pela localização e preço mas, nas resenhas, diversos hóspedes se queixavam da presença de percevejos nas camas.

Nas reviews, há reclamações de todo o tipo: hotéis de 16 andares sem elevador nem ajudante para auxiliar com as malas (imagina você subindo escada acima com bagagem de 30 kg), chuveiros que não funcionam, umidade, mofo nas paredes, roupa de cama suja e outras cosita más. Eleja suas prioridades na hora da leitura e permita-se ser ajudado por outros viajantes!

Dica: quando não é possível encontrar resenhas no próprio booking, jogue o nome do hotel no site TripAdvisor, site mundialmente conhecido por suas numerosas resenhas.

Outras páginas na web

Há vários outros sites que reúnem hoteis ao redor do mundo.

Para albergues, consulte:

www.hostelworld.com
www.hostelbookers.com
www.hostelseurope.com

Para hoteis baratos, consulte:

www.cheaphotels.co.uk
www.lastminute.com
www.hotelformule1.com
www.hoteis.com

Para hoteis chiques, não me pergunte que eu não sei. 😉

Uma host family para chamar de minha!

Antes de viajar, algo que me deixava um pouco apreensiva era a minha “host family”. O que esperar? Como devo me comportar?

Procurei informações em blogs, questionei minha agência, mas tudo era muito vago. Sendo assim, solidária que sou, organizei esse post para falar um pouco de como é a minha host family.

Em primeiro lugar, é bom grifar que minha família não é típica. Na verdade, eu tive uma espécie de “sorte grande” e caí numa casa um pouco diferente do que vejo meus amigos e colegas de escola relatando. No entanto, dividir essa experiência pode ajudar novos intercambistas a esboçar o que pode ser uma host family.

Em primeiro lugar: tem um coelho de estimação na casa!!!! Só por isso, digo que essa família é muito legal!!!! Artie é lindo, fofo e tenho certeza que ele me ama! Não pode me ver e já vem roçar no meu pé, me dar mordiscadinhas. Daí, eu o pego no colo e dou um baita apertão, todos os dias, só porque ele é muito fofo e meu último coelho morreu assassinado pelo meu proprio cachorro.

O que me é de direito

Bem, comprei um mês de acomodação com direito a café-da-manhã e jantar todos os dias, incluindo almoço nos finais de semana. Isso é um tanto comum, mas é bom observar exatamente o que se está escolhendo: alguns pacotes que li sobre Londres, por exemplo, só incluíam café da manhã.

Mrs Sheil (minha host mother), no primeiro dia, me mostrou como seria a minha vida aqui: eu preparo o meu café e ela, o jantar. Me apresentou tudo o que eu poderia comer (o que ela não apresentou eu não toco, esperta que sou), e que fim dar na louça (que vai para a máquina de lavar louça).

Acordo todo dia, vou à cozinha, preparo meu chá, ponho umas gotas de leite e faço uma torrada. Tem uma chaleira elétrica muito fofa na cozinha e uma torradeira muito eficaz! Se eu quiser comer cereal também tem aos montes, mas eu odeio cereal.

No jantar, cada dia o cardápio é diferente e Sheil e suas filhas é que preparam a comida – embora eu sempre me prontifique a ajudar.

 Auxílio

Óbvio que eu não tenho que fazer serviços domésticos e nenhum estudante tem que fazer isso. Mas, oferecer ajuda para retirar ou colocar a mesa, guardar as compras ou coisa assim não faz cair a mão de ninguém. Como os ingleses dão muito valor às ações espontâneas de boa educação, creio que agir assim possa ajudar o estudante a ter um convívio mais harmonioso com sua família.

Dia-a-dia

A minha rotina na casa é a seguinte: acordo cedo, faço meu café e vou para a escola. A tarde fico no centro da cidade fazendo qualquer coisa. Volto lá pelas 17h, porque o jantar na Inglaterra/Irlanda é cedo – por volta das 18h. Minha família, por não ser muito tradicional, nunca tem hora para jantar. Porém, muito importante:

Como o horário É às 18h, sempre que vou me atrasar devo ligar ou enviar uma mensagem de texto. Assim, ninguém cozinha para mim. Isso é muito importante!

Na hora de fazer o jantar, vezes fico no meu quarto, vezes desço. Como eles são muito legais, sempre fico na cozinha com as meninas: bebemos vinho e conversamos, ofereço ajuda em qualquer coisa e falamos sobre amenidades. É bom porque eu exercito meu inglês e porque tenho com quem conversar sobre o meu dia.

Acredito que o estudante participar da vida da família é uma via de mão dupla: ele deve se esforçar para isso e a família tem que dar abertura também.

Cardápio

A comida inglesa é famosa pela sua capacidade de ser insossa. Isso não é só maldade. Aqui não há muita variação e a comida é bem diferente da brasileira. Você encontra muita fritura, embutidos, carne de porco (até agora, não comi carne de vaca aqui – é a mais cara de todas) e de aves (embora pato seja caro) e muita, muita, mas muita batata.

Na minha família, as filhas de Sheil adoram cozinhar: então, cada dia elas inventam algo diferente, e adoram testar molhos e condimentos. Mas, é ótimo, porque, por gostarem de cozinhar, a comida acaba sendo muito boa!

Dica: se você achar que a comida está sem sal, aconselho a não dizer isso com todas as letras, porque pode não ser muito educado. É sabido que alterar a comida é uma ofensa ao cozinheiro. Mas, suspeitando que a regra fosse diferente aqui, certo dia murmurei: ‘vou pegar o sal’. Mrs Sheil me explicou que isso não era preciso porque ela já havia posto sal o suficiente na comida.

Aqui, creio que os alimentos sejam algo caro, então tudo é pouco. Eu não como grandes porções de comida, o que me ajuda muito a ser uma pessoa educada. Minha dica para quem não é desse tipo é que encontre um supermercado o quanto antes e sempre tenha no quarto algo para os momentos de emergência. Uma loja Tesco, por exemplo, é ótima: é um supermercado super barato, porque vive da exploração de países em desenvolvimento (por ter se graduado em Development, Mrs Sheil sempre grifa a atuação da rede Tesco).

O que não me é de direito

Bem, o que não me foi permitido usufruir na casa me é proibido – pelo menos, é essa a conta que faço.

Sheil me ofereceu para eu utilizar a geladeira dela. Então, agora, eu me autorizo a comprar lanches, comidinhas e a minha cerveja e a colocar lá. Mas, não é porque é minha cerveja que eu não vou dividir: sempre que vou abrir uma, ofereço, e eles ficam muito felizes em receber uma gentileza gratuitamente.

Não sabia se podia lavar minha roupa. Perguntei e fui liberada. A filha de Sheil me perguntou se eu gostaria de usar o wi-fi da casa. Me disponibilizou a senha e ainda me ajudou a configurar o meu computador! Eles são muito fofos.

Resumindo: acredito que passar um tempo na casa de uma família desconhecida é uma experiência muito legal. O exercício da convivência, da tolerância é enriquecedor. Para fazer as coisas corretamente, acredito que a observação é o melhor caminho. Para não fazer bobagem, as regras de boa educação são as mesmas, estando no Brasil ou na Inglaterra.