Elas só usam fio-dental

Foi na última quinta-feira, dia 1º de julho, que vi uma horda de mulheres, dos 17 aos 37 anos, me informar que elas só usam calcinhas fio-dental.

Estávamos todos no social programme da escola, que inclui idas ao pub. Com o passar das horas, naturalmente as mulheres foram se juntando num grupo do mesmo sexo. No melhor estilo Clube da Luluzinha, aquelas conversas surgiram. É engraçado como uma cerveja ou outra desperta nas pessoas uma vontade de falar sobre peito, bunda, depilação e demais intimidades.

O problema é falar disso em inglês. Nos cursos de idiomas, a gente não aprende o vocabulário que abarque áreas de conhecimentos tão distintas.

Tudo começou, claro, com Ingrid, que, apontando a japonesa Ayano, se virou para mim e disse:

– Keila, você acredita que Aya não usa fio-dental?

– Acredito. Eu também não uso, respondi.

Daí, num coro, todas as garotas, das mais distintas nacionalidades européias:

– Vocêêêêêê não usa? Como assim?! Você é brasileira!

(Esse é um bom momento para grifar: é um parto ser mulher brasileira. Eles acham que a gente fica sambando, nua, 365 dias por ano, e que, debaixo dessas humildes vestes, jaz uma bunda do tamanho de uma jaca e resplandece uma cor dourada, no melhor estilo cenoura-e-bronze).

Todo mundo duvidou de tal maneira que não sou adepta da tanga que quase me ofereci para mostrar minha coleção Marisa de calcinhas, 100% algodão.

Como elas pareciam muito chocadas, as professoras que acompanhavam os estudantes perguntaram o porquê daquela polvorosa.

Eu aproveitei a deixa para explicar que todo mundo estava em choque porque Aya e eu não usávamos a tal da tanga. Qual não foi minha surpresa ao saber que as professoras também ficaram passadas em saber que a gente não usava fio-dental!

O espanto trouxe pensamentos constrangedores a minha mente, como imagens daquelas duas professoras gordinhas vestindo uma lingerie super sexy…

Cena do filme O Diário de Bridge Jones

Ficou esclarecido, pois, que todas usam fio-dental 100% do tempo, já que acham mais confortável, uma vez que calcinhas normais acabam escorregando para o meio da bunda e incomodam, ao passo que as fio-dental já estão no meio da bunda por definição. Aliás, calcinhas normais, só durante a menstruação. (Imagina encontrar vocabulário para descrever isso – foi uma tarefa árdua, de muito desprendimento).

Tentando me defender daquelas garotas que ameaçavam arrancar minha calcinha 100% algodão na unha, expliquei que não apenas eu não sou adepta da tal da tanga. De todas as minhas amigas brasileiras, não conheço uma que use esse tipo de lingerie. (Tá certo que eu não fucei no armário de todo mundo para saber com precisão, mas mulher conhece a intimidade uma da outra).

Essa conversa toda me trouxe um questionamento: num país onde há as inglesas, por que se fala tanto da mulher brasileira? Num país onde a mini-saia não passa de um tapa-sexo, onde as pessoas vão de lingerie para a balada, onde roupas apertadas, coladas, fazendo peitos e bundas saltar aos olhos são coisa corriqueira, por que a surpresa com as mocinhas do país-tropical, deus do céu? Só porque, durante quatro dias no ano algumas representantes da nossa espécie, por motivos ainda desconhecidos, resolvem dançar no carnaval apenas cobertas por glitter?

A despeito das razões que fazem as pessoas acreditarem que o Brasil é uma fábrica de mulheres prontas para acabar com o marasmo sexual europeu, eu sempre acho que as mocinhas daqui são muito mais sexys – e se esforçam sempre em sê-lo – do que todas as garotas que já vi no Brasil.

Anúncios