Primeira semana de aula e todos os medos do mundo

Na última segunda-feira, 22, foi o meu primeiro dia de aula. Os medos eram variados: será que falarei bobagem, será que as pessoas são legais, será que farei amigos, será que será difícil, será que irei para a Grifinória?! Eram muitos sentimentos misturados.

Apesar da ansiedade inicial, a primeira semana foi passando de maneira lenta e intensa, de forma que, quando chegou o último dia, a sensação era de estar boiando em um mar de deadlines. Sim, me toquei, vai ser difícil para caramba. E, sim, vou aprender para caramba também.

As aulas giraram em torno de testes. Analisamos o discurso de diferentes jornais, produzimos reportagens sob a pressão do cronômetro e tivemos a visita de um figurão da indústria, Maurice Chittenden, editor noturno do The Sunday Times. Também houve encontro com ex-alunos, muito vinho branco para quebrar o gelo e até um “assignment”, algo que chocou todo mundo.

Assignment

As semanas introdutórias são conhecidas por sua mansidão. É quando os estudantes conhecem as instalações da universidade, tomam pé da grade curricular e socializam. Nada de trabalhos! Mas meu curso, ficou evidente, será denso.

O primeiro desafio da semana foi encontrar uma organização que fizesse um trabalho relevante, entrevista-la e produzir uma reportagem. Eu entrevistei a Al Madad Foundation, uma fundação que trabalha com crianças refugiadas, principalmente na Síria e no Líbano, promovendo a educação e a alfabetização.

A diretora da organização me recebeu na tarde da última quarta-feira (24) na sede da instituição, que fica na região de Westminster. Descendentes de libaneses, ela cresceu e foi educada na Inglaterra e, além de dirigir a Al Madad, é uma artista que utiliza conflitos políticos com temática. Foi muito interessante ver como uma organização que sabe que não irá mudar o mundo racionaliza ações de ajuda humanitária.

Westminster, uma região muito bonita

Westminster, uma região muito bonita

No caminho para a entrevista, uma passadinha num pequeno parque

No caminho para a entrevista, uma passadinha num pequeno parque

Na quinta (24), data da entrega da matéria, redigi o conteúdo e me senti aliviada por dar conta do primeiro “assignment”, como eles chamam por aqui.

Assim, passou a primeira semana e nada de trágico aconteceu. Só coisas boas.

A partir desta segunda (29), o curso começa para valer. O foco inicial é em prática jornalística. Faremos muitos workshops em produção de jornal e precisaremos redigir algumas dezenas de reportagens durante este primeiro módulo, que vai até dezembro. Somado a isso, teremos aulas de jornalismo de dados e de jornalismo digital. Em janeiro, o foco é em inovação em jornalismo – um módulo no qual estou extremamente interessada.

Terceiro dia na ICS English!

Esta quarta-feira (28) foi bem interessante, já que conheci um pouco mais sobre a inteligência europeia e japonesa.

A primeira parte da manhã foi dedicada a exemplos de testes que encontramos no Exame de Cambridge, de proficiência, muito importante para qualquer um que deseja ingressar numa universidade britânica. Como os alunos estão quase no mesmo nível de aprendizado gramatical, apresentamos os mesmos erros. Tirando os japoneses, que gabaritaram todos os testes.

Após essa primeira parte, fizemos atividades em dupla. Era para que eu e o espanhol fizéssemos um exercício inocente: identificar figuras e descrever, de acordo com o enunciado, o que estava ocorrendo. Rafa, com uma rapidez surpreendente, conseguiu correlacionar as figuras com o enunciado e apontar qual era a sua visão da opção correta.

Chamou-me a atenção que aquela postura congregadora dos brasileiros, do tipo, dizer “oi” antes de começar uma atividade em grupo, não existe. Rafa foi logo dizendo “eu acho que é assim”. Fiquei pensando como deve ser difícil fazer um europeu entender a filosofia do “trabalho em equipe” apregoado pelas revistas de carreiras. Ou de como ser difícil um brasileiro que lê Você S/A aplicar qualquer dica no dia-a-dia de uma empresa multicultural.

(É importante apontar que a postura do espanhol não foi ríspida ou rude. Este é só um relato do ocorrido).

 Na segunda parte da aula, tivemos bastante conversação. Todos vão entender agora como é que os espanhóis e italianos falam em inglês. Na atividade, era para que me apontassem lugares bacanas para visitar em Norwich.

Rafa: “It’s a good Idea to walk no leito do rio. Sim, “leito do rio”! Eu entendi, obviamente, porque essas palavras espanholas são as mesmas usadas no português. Mas, eles fazem isso todo tempo. Têm uma dificuldade enorme em abandonar o próprio sotaque e a própria língua.

Depois disso, fizemos uma sessão interview e cada um de nós perguntava ao outro o que havia de mais interessante na sua cidade de origem. Foi bem legal, conversei com as garotas da Itália, Espanha e Suíça.

Na última atividade, a professora pediu que Ingrid me ajudasse num questionário, já que eu nunca tinha feito a atividade antes. Ingrid disse “ahãm”. Terminou o teste dela e foi conferir o que eu tinha acertado ou errado. Nem um “precisa de ajuda”? rs. A boa notícia é que não sabia apenas três questões simples sobre o uso do “already” e “just” e o superlativo de “noise”. 

Por último, gostaria de ressaltar que este é um relato de minhas observações e que cada um que fizer um programa de intercâmbio terá as suas descobertas. Para mim, essas experiências estão sendo incríveis! É muito bom observar que estou numa escola realmente de qualidade, onde os professores se aplicam em nos fazer aprender o inglês acadêmico. Somado a isso, estou tendo uma oportunidade única de aprender muito, mas muito mesmo, sobre como as pessoas são diferentes, mas como há algo de semelhante em todos nós.

Muito além de um curso de idiomas

Muita coisa interessante aconteceu nesta metade de semana. Como tenho a sensação que cada diálogo que travo é importante, parece que estou aqui há dias! Neste post, vou me fixar nos primeiros dois primeiros dias de aula, que foram bem interessantes.

First Day – Nice to meet you too!

Na segunda-feira, cheguei à escola com 50 minutos de antecedência. Fui recepcionada pelo proprietário, que me ensinou como abrir a porta (todas as portas deste país emperram). Subi para o Study Centre, uma sala com livros e computadores.

De repente, um furacão parece ter entrado na sala. Uma moça que falava alto, cheia de gestos, já foi logo apertando minha mão e comemorando “oh, new student!”. Cristina é uma italiana que faz curso intensivo, e é divertidamente efusiva. Em questão de segundos, me apresentou dois amigos, um da Líbia e outra da Tailândia, e sumiu escada acima.

O primeiro dia de aula ocorreu no Study Centre mesmo e foi inteiro dedicado a testes. Éramos três estudantes iniciando: Farah, da Arábia Saudita, Saskia, da Alemanha, e eu, Brasil (ohh! – é o que todo mundo faz quando digo que sou do país-tropical-abençoado-por-deus). A gerente da escola, Helen, foi a responsável por aplicar os testes, compostos por quatro “provas” sobre gramática, composição textual com o tema: as motivações de estudar inglês, além de uma história em quadrinhos e, por último, uma entrevista, para avaliar nosso nível de conversação.

Farah, o árabe, era um pobre coitado que não sabia responder a mais modesta das questões. “What is your name?”, e ele respondia: “Yes”. “Where are you from?”, e ele respondia “Yes”. Saskia, a alemã, ria do pobre Farah, que talvez nem isso compreendesse.

Nesse tempo, tivemos um break, um intervalo, e Farah não entendia que era hora de dar uma volta, tomar um chá e voltar. Helen teve que colocá-lo para fora da sala. Solidária que sou, me comprometi a cuidar dele. Saskia continuava rindo de Farah. Na porta da escola, conversando, a alemã mostrou suas garras: riu do modo como os japoneses falam e ficava toda hora explicando como era difícil aprender francês, como se inglês ela já soubesse. Ahãm.

Após o intervalo, subimos para a última parte do teste e fomos liberados.

Segundo dia – novos colegas!

Na terça-feira (27), conheci de fato minha turma: Ingrid e Rafa, espanhóis, Misao, Ayono e Gen, japoneses, uma aluna da Suíça e Valentina, da Itália. Quase todos os continentes representados por cada aluno ali presente. Cada um se apresentou, disse o famoso “Nice to meet you” (que eu sempre tenho vergonha de responder a mesma coisa de volta) e eu me apresentei. Disse que era do Brasil e todo mundo soltou um “ohh”.

Na segunda parte da aula foi que eu comecei a aprender um pouco sobre intercâmbio cultural. Anette, a professora, pediu que nos juntássemos em duplas. Tirou o espanhol do meu lado e colocou Gen – que não gosta mais de mim. Fizemos um teste bem difícil. Não porque era em inglês, mas porque tratava de questões um pouco complicadas para alguém que não lê “Guia dos Curiosos”.

Questão 1: Qual o país com a maior costa do mundo?

Gen me perguntou e eu respondi que não fazia idéia. Chutei Rússia e ele me respondeu que “não, não é. É o Canadá”. Assim, questão a questão, ele passou a achar-me indigna de ser sua parceira. Depois, questões como as cinco cidades mais populosas do mundo, cidades que estão ao norte dos Estados Unidos e blábláblá. Obviamente, que não sabia nenhuma delas. Mas, descobri algo incrível: todos eles sabiam ou tinham pelo menos uma idéia das respostas corretas. Gen sabia até o formato do rio Nilo! E pior: que era diferente do formado do rio Amazonas.

Fizemos ainda mais dois testes nestes moldes, mas com perguntas sobre Belfast, Irlanda, Erin, EUA, Perth, Austrália, e Port of Spain, Caribe. Nesse, eu fui melhor, porque sabia, por exemplo, que Perth e Belfast foram possessões Inglesas, assim como Caribe e tínhamos uma foto de cada lugar – e raciocinávamos com base nessa informação. Mas, a essa altura, Gen já tinha dado seu veredicto sobre as minhas habilidades intelectuais. No final, era para confrontarmos nossas questões e ele se recusou delicadamente a fazer isso, preferindo me ignorar e falar com a suíça.

No final da aula eu me esforcei para que isso não machucasse o meu ego. E pensei que ele é só um japonês que vive em Tokyo, muito inteligente, mas que tem uma pronúncia péssima no inglês e que ninguém nunca vai entender o que ele fala.

Mas, obviamente que tal pensamento me ocorreu apenas por alguns segundos. Eh importante ter Gens e afins para o aprendizado que almejo aqui. 

Entao, thanks Gen! (embora ele nao diga You are welcome).