Na Inglaterra, com batatas

Após completar um mês nessa terra, gostaria de falar sobre um dos pilares de uma cultura – sua culinária.

Estou numa terra do culto à batata. Ela é o ingrediente principal em qualquer prato. Seja a batata-doce, seja a tradicional: a presença deste ingrediente é garantida nas entradas, refeições principais e, não obstante, em sobremesas.

Não tenho freqüentado restaurantes. Estando numa terra onde meu dinheiro vale três vezes menos, economizar é a palavra que o meu cérebro sussurra constantemente para mim – em qualquer situação. Sendo assim, aderi a uma espécie de gastronomia do baixo custo, que inclui quitutes como:

  • Jacket Potato: batata cozida, maionese e um ou dois ingredientes escolhidos por você: presunto de Parma e salame, por exemplo. Não vai molhinho, não vai ao forno. A seco. 
  • Fish and Chip: é uma espécie de fast-food caseira, composta por batata-frita e peixe frito. Em vez do peixe, eu sempre opto por uns rolinhos recheados, os spring holls, com curry.
  • Bacon Roll: é um sanduba com bacon, onde você tem o bacon e o pão.
  • Cachorro-quente: a salsicha e o pão.

Adepta destas comidas tradicionais, meu circuito gastronômico tem se restringido a três locais principais:

  • O Fish and Chip próximo à escola. 
  • Marketplace – tradicional em Norwich, este mercado municipal concentra uma grande quantidade de fish&chips, barraquinhas que servem sandubas e demais preciosidades do cardápio inglês.
  • Supermercado Tesco: é onde se encontram sanduíches muito baratos. Tentei por dois dias e desisti.  

Num primeiro momento, como tudo era novidade, me divertia comendo um prato de batatas na hora do almoço. Porém, agora, isso começa a me levar a um certo desespero. Esses dias, atacando um fish&chip, ri debilmente, pensando no absurdo que é almoçar um prato de batatas!

Cansada dessa vida, resolvi testar novas possibilidades. Sempre que ia ao mercado, observava os locais se deliciando com uma sopa verde. Logo me lembrei dos meus caldinhos de ervilha pedidos por delivery durante os anos de faculdade, que me aqueciam a alma nas segundas-feiras de geladeira vazia.

Ao evocar tal lembrança, corri para a barraquinha de Mushy Peas, saquei uma libra e fiz o pedido. Como suspeitei, não havia paralelo algum entre os meus caldinhos da Joana e aquela sopa. Na tentativa de salvar o meu almoço, apostei no sal. No final, o caldinho era só algo verde com gosto de salmoura.  

Na última semana, num ataque de nervos, corri para o primeiro pub possível em busca de um bife: pedi um steak grelhado com cogumelos, ovos fritos, tomate e feijão (esquece, não é o mesmo feijão que as nossas mães fazem no almoço). Tentei evitar, mas as batatas estavam inclusas no pacote.

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Obviamente, o cardápio inglês não se resume a essas bobagens listadas. Fiz uma retrospectiva do que eu venho experimentando no campo do trash. Temos aqui tortas, caldos, muitos molhos e embutidos são famosos. A carne bovina é cara. Por isso, é muito comum o consumo de carne suína e de carneiro.

Algo curioso é o tratamento dado à cebola: enquanto no Brasil subentende-se que tudo é cozinhado com cebola, aqui ela tem um status diferenciado, ocupando o posto de alimento. Por exemplo: quando você lê o cardápio, a cebola sempre aparece lá como um… acompanhamento!

E você pode incluí-la ao seu prato, pagando mais por isso, caso sinta falta. Para um brasileiro, isso é quase divertido: afinal, quem um dia se importou com as cebolas? Elas sempre foram usadas e pronto! Nunca mereceram respeito algum. Aqui, porém, elas têm dias de glória.

Voltando ao primeiro ponto desse post – a gastronomia como pilar de uma cultura. Veja bem, isso não é piada! Acredito que podemos ter quase tudo longe do nosso país de origem: fazer novos amigos, comprar os mesmos tipos de roupas, festas, cerveja, encontrar o mesmo ovomaltine ou o mesmo sanduba do McDonald’s.

Mas a nossa comida é algo totalmente particular. É a expressão máxima da nossa identidade. Se eu comprar o arroz daqui e fizer um arroz não será o mesmo! O feijão, então, esquece! O sabor de uma comida tem relação direta com sua terra, com o manejo dos seus ingredientes.

Por enquanto, que me desculpem os queridos amigos, mas do que tenho mais saudade é do arroz com feijão do Brasil. 😉

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