Ela é a mais bonita

Acabou a viagem à Alsácia e fizemos as malas rumo a Paris.

No caminho, uma parada na capital da Lorraine, Nancy, onde conhecemos a praça mais bonita do mundo.

Portão de aço com detalhes em ouro de verdade! E ninguém tira lasquinha…

A praça Stanislas, datada do século XVIII, é considerada a praça real mais bonita de toda a Europa e um magnífico exemplo da arquitetura clássica francesa. Ela foi concebida por Stanislas Leszczynski, Duque da Lorraine, para honrar seu filho adotivo, Luiz XV, e unir as partes antiga e nova da cidade de Nancy.

Hoje a praça abriga exposições e instalações artísticas, utilizando elementos de jardinagem.

Jardim para a Melian: instalação em homenagem à cerâmica, elemento básico para a arqueologia.

Símbolo da paz.

hihi.

Estátua em homenagem a Stanislas.

Ela é um dos 20 lugares da França que figuram na lista da UNESCO como patrimônio mundial da humanidade, além de ser lugar ideal para experimentar uma autêntica quiche lorraine

Auro fez o garçon ter espasmos de indignação ao pedir uma lazanha, em plena França. Chatos.

E um brinde, para seguir viagem.

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Nas vilas da Alsácia

A Alsácia é um cartão postal em si mesma.

Localizada na região nordeste da França, é cortada por vilas rurais franco-germânicas, vales e vinhedos.

Nas montanhas no Alto-Reno (Haut-Rhin), entre florestas, ruínas de castelos medievais desenham-se no horizonte. Nos pés das ruínas, vilarejos que datam de um tempo antigo nos lembram sistemas feudais, o poder dos senhores, a vida dos vassalos.

Fortificações que protegiam os camponeses que ali viviam sobrevivem à ação do tempo.

Mansões e casebres alsacianos são muito peculiares: paredes cortadas por vigas horizontais, verticais e oblíquas dominam as pequenas ruas medievais.

É fácil imaginar as carruagens que ali passavam. Também são cenário possível para cavaleiros disputando a honra numa luta de espadas. A Alsácia é inteira cenográfica.

A vila de Eguisheim é uma dessas típicas vilas. No centro de turismo é possível obter um mapa da cidade, que se cruza numa caminhada de 30 minutos. Começamos pelo circuito histórico. Custamos a acreditar nas janelas, sobretudo no parapeito das janelas.

E essa caixa de correio?

Entendemos porque Eguisheim ganhou vários prêmios como uma das mais belas cidades floridas de toda a França. (Não é uma graça eles terem uma premiação assim?)


Uma vez em Eguisheim, recomendamos a Rota dos Três Castelos, que não conseguimos visitar, já que os antigos monumentos só abrem, de outubro a novembro, aos fins-de-semana.

Em Neuf-Brisach, a cidade militar em formato octogonal, encomendada por Luiz XIV, as fortificações do engenheiro militar Vauban são classificadas como patrimônio mundial da humanidade pela UNESCO. Com o museu fechado e uma atmosfera fantasmagórica que reinava naquela cidade vazia, nos satisfizemos com os detalhes das janelas.



Nos próximos posts, informações sobre vilarejos e suas adegas, o castelo mais famoso da Alsácia e a capital da Europa, Estrasburgo.

Por agora, é preciso parar, pois temos que dar fim nos vinhos brancos comprados numa das tantas caves que encontramos na Rota do Vinho. 🙂

A arte de dizer goodbye

Eu poderia ser qualquer coisa na vida, menos médica e dizedora de goodbyes.

A partida me dói. Estações de trens, rodoviárias, pontos de ônibus de cidades interioranas, são todos matéria de nostalgia.

No fim-de-semana que passou, expliquei para os amigos japoneses a palavra em português saudade. O inglês é tão objetivo, não a encontro na nova língua. Eles também não. E, por isso, a incorporaram ao vocabulário. Tasuku veio me dizer domingo, na prévia de partir:

– Estou sentindo uma coisa estranha… acho que já é saudade.

Na próxima sexta-feira (15), termino meu programa de estudos e também deixo Norwich. Já começo a me despedir de cada lugar. Para cada dia chuvoso, cada jardim, começo a dizer a eles um adeus calmo, mas definitivo.

Hoje Tasuku pegou o trem para Londres. Fugi para não dizer bye bye. Mas não teve jeito. Aya e Asaka me convocaram para um café. Só que tomar um latte esperando a hora da despedida é contagem regressiva, é tempo delimitado, é aguardar um fim que já está na soleira da porta. Foi um café cheio de risos, porque eram os últimos, mas de risos afetados por olhadelas no relógio.

Não encontrei nem Ingrid, nem Chiara, boas amigas que fiz aqui, nos respectivos dias em que voltaram para casa.

É emoção ao avesso ir à estação de trem, ver malas prontas, assistir a procura pela plataforma, a entrada no vagão, com a sensação de que aquele adeus é até nunca mais. Claro que há a possibilidade de um dia viajar e encontrar essas pessoas, mas a parte prática é que isso provavelmente não ocorrerá.

Esse sentimento de fatalismo é dolorido, mesmo que não haja tanto afeto assim. A questão não é deixar quem parte, mas se dar conta da existência inexorável da partida.

Após acompanhar Tasuku até a estação, aproveitei para comprar meu bilhete para Londres para a próxima sexta-feira, último dia de minha estada aqui.

A atendente me pergunta:

One way?

E eu me dei conta que Sim. É a minha vez de ir embora.

Atrás da minha casa tem um jardim, o James Stuart Garden. Após a morte de Stuart, sua esposa o construiu em homenagem a ele. Foi o seu modo de dizer goodbye, mas com arte.

Eu conheci um lorde ali parado no jardim

Numa tarde ensolarada de sexta-feira, com um sol morno muito carinhoso, estive numa pequena festa no jardim de um lorde, daqueles que A rainha pôs a espada no ombro três vezes.

A festa aconteceu no dia 21 de maio, quando o tempo deu uma trégua e o sol apareceu, elevando as temperaturas para além dos 20ºC. Minha host mother, Sheil, me convidou para o encontro, cujo objetivo era arrecadar fundos para a caridade pela venda de livros, bolos, plantas e vinho. Sheil era a responsável pela venda dos vinhos e lá fui eu ajudá-la em troca de muitas taças.

O casal ilustre que nos recepcionava era David e Rosie, Sir e Madam, respectivamente. David, o Lorde, estava numa camiseta azul e numa bermuda cor de creme. Professor de Cambridge, ele é sorridente, parece ser gente como a gente. Rosie, sua esposa, vestia um longo avental. Poderia ser uma dessas donas de casa amáveis que cuidam dos jardins em qualquer filme britânico.

É curioso pensar que eles ainda têm Lordes neste país. E, que fique claro: eles não são (ainda) peças decorativas de uma monarquia cambaleante, mas figuras com certa representatividade política. Dá pra acreditar? Nobres e fidalgos no poder, em pleno ano de 2010!

Há até uma Câmara dos Lordes, que é uma das casas do Parlamento (a segunda é a Câmara dos Comuns, cujos representantes são eleitos pelo voto, democraticamente). Esssa Câmara é composta por nobres de nascença, lordes nomeados a título vitalício pela Rainha (em recompensa de serviços prestados à nação), e bispos. O Partido Trabalhista, claro, quer extinguir a Casa dos nobres, mas me parece que os ingleses se orgulham dessa coisa de monarquia e “pares do reino”.

Voltando à festa: o jardim de Rosie e David era bem dividido: nas laterais, estavam as flores, margaridinhas e tulipas. Ao meio, um gramado amplo, e, quase ao fundo, uma árvore grande dava abrigo para a lojinha improvisada de livros. No canto esquerdo, depois da árvore, uma pequena horta com várias hortaliças, o orgulho de Rosie. Próximo das flores na lateral, estavam os responsáveis pela venda dos vasinhos de plantas, que iam de temperos a mudas de flores. Simples, sem nenhum elemento que apontasse luxo ou riqueza, o jardim tinha aquela aura de “autônomo”, que todos os jardins daqui têm.

Num deck no segundo andar, uma banda, com repertório do leste europeu, deu clima à festa, com um violoncelo poderoso, que música-sim, música-não fazia a sua parte.

Enquanto isso, Sheil estava sentada em nossa banquinha de bebidas. Éramos responsáveis pela venda de vinhos tinto e branco, das cervejas e do suco caseiro, feito das uvas que floresceram no verão passado, ali mesmo naquele jardim. A videira, que deu tais frutos, estava bem acima de nós, testemunhando os “hums”, “hãm” que cada um fazia quando tomava a concentrado bebida.

Depois de passear pelo lindo jardim, fui propor minha modesta ajuda. Para tomar nota: na Inglaterra, não é permitido vender bebida alcoólica sem licença. Então, cada um que comprava um drink alcoólico recebia um tíquete. A estratégia é a seguinte: se um fiscal baixasse ali, o argumento seria que o produto vendido era o tíquete, e o vinho, apenas um brinde da casa.

A tarde foi caindo e era bonito ver todo mundo banhado por aquela luz de pôr-do-sol, com taças numa mão, vasinhos de flores em outra. Enquanto ia admirando a cena, também ia treinando meu inglês: contar as moedinhas, aprender a dar o troco (o money…), compreender diferentes sotaques, ser apresentada por Sheil para cada um que comprava uma taça de vinho e depois ter que lembrar o nome de cada um deles, a perigo de Sheil ficar desapontada comigo. Foi bom para o inglês, bom para exercitar a memória.

No fim da festa, minha host mother veio me mostrar uma planta, que parecia um pé de couve. Eu fiquei toda esperançosa para o jantar, porque eu AMO couve. Mas, ela logo me explicou que de couve aquilo não tinha nada, que do caule se fazia uma sobremesa muito famosa. Fiquei pensando na sobremesa que se é feita com o caule de uma planta que é a cara de um pé de couve, e não me animei muito. Mas, tive que provar depois.

De volta para a casa, fiquei sentindo uma coisa boa na alma, daquelas que a gente sente quando dá de cara com a calma.

Credito: O titulo desse post foi sugestao de Ticiane Toledo        . Ela adora quebrar ideias tradicionais. Ela adora cultura pop.