Uma breve explicação sobre jornalismo de dados e comunidades online

O meu mestrado tem dois focos técnicos: jornalismo de dados e gestão de comunidades online (em inglês, data journalism e online community management).

Aqui vai uma explicação muito breve e simplificada do que são esses dois temas (mãe, essa é sua chance de finalmente entender o que eu vim estudar aqui! 😀 ).

Em jornalismo de dados iremos aprender sobre ferramentas para aquisição, estruturação e apresentação de dados.

O crescimento dessa área dentro do jornalismo vem da ideia de que, em cenários cada vez mais complexos, de alta digitalização e de excesso de informações, não basta somente entrevistar pessoas: é preciso saber ler e interpretar grandes quantidades de informações.

Isso pode significar, por exemplo, analisar estatísticas e cruzar diferentes tipos de informação para se chegar a uma afirmação. É possível que também seja necessário estruturar dados que estejam “bagunçados” – quanto mais sensível a informação, maior a probabilidade dela estar escondida ou disponível de maneira incompreensível.

Ao fim, ao “encontrar” a notícia dentro dos dados, há a apresentação disso: pode ser por gráficos interativos, mapas responsivos, entre outros. Cada etapa desse processo demanda aplicativos e softwares específicos e aprenderei alguns deles aqui.

Jornalismo de dados tem uma forte interseção com design e estatísticas. Aliás, já discute-se a divisão dele em categorias, como reportagem assistida por computador, em que o foco é na captura e análise de grandes bases de dados, gráficos interativos e visualização de dados.

Abaixo há um vídeo muito interessante que assistimos em nossa primeira aula de data journalism na semana passada, sobre visualização de dados em um espaço físico real. O estatístico analisou a evolução da renda e da expectativa de vida em 200  países nos últimos 200 anos e produziu essa visualização magistral:


Comunidades online

Em gestão de comunidades, iremos entrar na área de redes sociais: como construir relacionamentos dentro de social media, como gerenciar o “capital social” dentro desse ambiente, como desenvolver e alimentar comunidades online, como dialogar com uma audiencia.

Tambem iremos aprender sobre o que eles chamam de ‘sourcing online’, ou seja: encontrar potenciais histórias [aqui é forte o “jornalismo cidadão”, que tem a colaboração dos leitores] mas, principalmente, verificar o quão verdadeiras são as colaborações.

Pessoas mandando vídeos e fotos de protestos de Hong Kong, por exemplo: é possível confiar? Como se certificar da veracidade disso?

Há formas e iremos aprender sobre elas.

Aprender a aprender, essa nobre tarefa

Essa é a City University London, a instituição que será minha universidade pelo próximo ano:

City University London, minha universidade

City University London, minha universidade

Estou aqui para cursar Jornalismo Interativo, um dos programas mais famosos da City. O mestrado foi criado no final de 2010 e seu sucesso se deve à alta taxa de empregabilidade dos alunos. Se eu seguirei a regra, não sei, mas é bom saber que as habilidades adquiridas pelos alunos estão sendo demandadas pelo mercado.

Somos em 14 pessoas apenas, um grupo pequeno, o que eu acho muito interessante.

Nesta primeira parte do curso, que vai até dezembro, fazemos muitas das aulas com a turma de Newspaper Journalism, um mestrado clássico da universidade. Somadas as duas turmas, somos em 53 estudantes. Deste grupo, há somente quatro estudantes internacionais: uma bielorrussa, uma francesa, uma sueca e uma brasileira (eu!). O restante é formado por alunos britânicos, de Londres e arredores.

Da biblioteca, vemos a Northamption Square, que é uma pracinha boba e fofa que tem em frente da faculdade

Da biblioteca, vemos a Northampton Square, que é uma pracinha boba e fofa que tem em frente da faculdade

As semanas são intensas, temos cerca de seis horas de aula por dia. Há vários projetos extra-classe e somos avaliados pelo que produzimos. Para cada disciplina, precisamos criar um portfólio, que encapsule o melhor de nossa capacidade intelectual.

Voltar à faculdade tem algo de extremamente interessante: os professores. Um bom professor é como derramar água num deserto de ideias adormecidas: ele as faz florescer.

E assim é uma das professoras que tenho aqui. Enquanto o jornalismo enfrenta uma crise de moralidade e de confiança no mundo todo, ela não se importa em repetir: “tenham dignidade, tenham empatia, tenham humanidade”.

Suas aulas são desafiadoras: reunidos em pequenos grupos a cada semana, produzimos trechos de reportagens sob o cronômetro e depois lemos em voz alta, de modo a submeter o conteúdo a ela e aos colegas.

Ela ouve e depois faz suas perguntas, de forma que reflitamos sobre o que produzimos e sobre o que os outros produziram. Assim aprendemos.

Há também uma cadência para as coisas acontecerem, tudo é passo a passo: teremos semanas de aula sobre como fazer uma boa introdução. E depois moveremos para o corpo da reportagem.

Na área técnica do curso, que é composta por jornalismo de dados e gestão de comunidades online, os professores são entusiasmados, técnicos, precisos, e a sensação é que isso é mesmo um sonho se tornando realidade.

Outros aprendizados

Como uma estudante internacional, eu vejo que os aprendizados vão além do acadêmico: aprendo os códigos de conduta, a melhor maneira de me posicionar e, principalmente, aprendo a enxergar as dificuldades como desafios a serem transpostos. Sério: em duas semanas de aula, acho que já entrei e saí de umas cinco crises! ha ha!

Mas, de cada “crise”, saio mais confiante. De cada trabalho concluído, me sinto mais capaz. De cada atividade em classe, me sinto mais preparada.

Aprender é bom, mas não é fácil. Exige humildade, trabalho, a disposição em colocar-se na desconfortável posição de não ser a parte que sabe.

Para mim, aprender é nobre. Quando se vê, aprendemos muito mais do que queríamos, mas nunca mais do que precisávamos.