Catedral de Norwich, 900 anos de história

(Com informações do site oficial da Catedral de Norwich e dados coletados durante a visita ao monumento e pitacos de Claudio Torres).
 
Fotos: Keila C. Guimarães

Há algumas semanas, fui visitar a Catedral de Norwich, um dos monumentos mais importantes da cidade. Foi, com certeza, uma das construções mais fantásticas que já vi. Além de belíssimo, o passeio foi muito interessante, porque a história da catedral se confunde com a história de Norwich e um pouco com a da própria Inglaterra.

O monumento começou a ser construído pelos normandos 30 anos após a invasão dos franceses, em 1.066. A catedral levou 79 anos para ser concluída, e suas paredes e arcos demonstram a impecável destreza dos que ali trabalharam. E, além de ser uma catedral, o monumento também foi um monastério beneditino. Porém, nos folhetos e no site da catedral, há pouca informação sobre o mosteiro em si.

Apontada nas resenhas como um dos mais grandiosos monumentos de sua época, a catedral também é tida como uma das mais completas e inalteradas construções normandas, e uma das maiores catedrais de toda a Europa. 

O monumento foi construído em forma de cruz. A grande importância arquitetônica da catedral hoje repousa na escala da construção romanesca original e na sua sobrevivência sem perdas até os dias atuais.    

O estilo estético romanesco, adotado principalmente pelos franceses (embora também tenha florescido na Alemanha e Itália), remonta à arquitetura romana e é conhecido pelo uso de arcos semicirculares em janelas e portas e, dentro das igrejas, pelo uso de corredores laterais com galerias sobrepostas e uma grande torre sobre a nave principal. Vale ressaltar que a torre da catedral de Norwich é a torre normanda mais alta da Inglaterra.   

Na catedral também podem ser encontrados vários elementos góticos, como na abóbada da nave principal, construídos entre 1454 e 1462.     

Abaixo, algumas informações que penso ser úteis para que vocês façam esse passeio comigo, coletadas durante o passeio e no site oficial da catedral (os monumentos aqui são muito bem cuidados – todos têm página na Internet, rs).      

Desde 1145, o arcos circulares e as pilastras continuam do mesmo modo, sem retoques.

 A nave   

É o ponto dedicado ao público quando assiste às cerimônias religiosas e o primeiro ponto visitado na catedral. Quando você entra e sente o ar gelado, inicia uma viagem no tempo: cada vitral tem uma história, cada pedra teve a mão de um homem para esculpi-la. A imponência da construção causa deslumbramento: quanta luz, que altura, que imponência. Pensei no poder que a arquitetura exercia sobre os discípulos naqueles tempos, gerando temor e devocao.  

Sobre a nave: a palavra nave veio do latim navis, e significa barco. A concepção da nave como um navio evoca a idéia de que o clero e os discípulos estão viajando juntos, em direção a Deus. (Achei muito linda essa concepção!)  

Os enfeites entalhados da abóbada elevada contam a história da criação humana, nossa redenção e os planos de Deus para a eternidade.  

 

 
Transepto

Após a nave, o altar, o púlpito e o coro, há os lados sul e norte do transepto. Trancepto, segundo o Michaellis, “é uma nave transversal que separa, numa igreja, o coro das outras naves, formando os braços de uma cruz, nos templos construídos no estilo das basílicas primitivas”. Falando assim, fica meio difícil de imaginar, mas, olhando no mapa e as fotos, talvez fique mais fácil de visualizar… Na catedral, os transeptos foram construídos para auxiliar a sustentar a grande pressão exercida pela torre, a mais alta de um prédio normando na Inglaterra.   

O claustro

Eu amei o claustro. Como foi dito, a catedral também foi um mosteiro beneditino e o claustro era um local muito importante para os padres. Senti-me em O nome da rosa, caminhando por um local secular. Imaginei, há 600 anos, quantos jovens seminaristas não se alegraram num dia de sol naquele mosteiro gelado, por quantas primaveras eles não ansiaram?    

O claustro era o ponto central do mosteiro. Os padres caminhavam por essa área coberta para alcançar as áreas-chave, importantes para a vida diária: a catedral, para o culto, o refeitório, para as refeições, a Hospedaria e o Parlatorio, para receber os convidados, a Casa Capitular, para encontros com a comunidade, e o Dormitório.     

Todavia, o claustro era mais que simplesmente uma via coberta para caminhar entre os prédios da catedral. Era também uma rota importante para procissões litúrgicas e um espaço para trabalho e estudo.   

Coro 

Os trabalhos da catedral foram desenvolvidos aqui por mais de 900 anos. Os assentos, de carvalho, foram feitos de modo que os padres pudessem mudar de posição e descansarem, já que eles faziam a mesma atividade litúrgica oito vezes ao dia. As elevações que permitiam esse descanso vieram a ser conhecidas como “misericórdia”, pelo conforto que permitiam aos padres.   

Trono do bispo      

Unicamente na Inglaterra, a Catedral mantém o trono do bispo na cabeceira da igreja onde ficam colocados o altar-mor e a cadeira episcopal, criando uma ligação com o desenho das basílicas romanas do século IV. Hoje, o moderno trono de madeira exposto na catedral possui apenas fragmentos de pedras do original.      

Labirinto e, ao fundo, a catedral.


Labirinto

No ponto central do jardim do claustro há o labirinto, usado como ferramenta para o “desenvolvimento espiritual”. Ele foi construído em 2002, para comemorar o jubileu da rainha Elizabeth II em seu reinado sobre a Inglaterra. Olha que bonita a descrição do site para Labirinto, um conhecido elemento mítico: “Um labirinto não é algo confuso. Há somente uma entrada, um caminho e nenhuma escolha, truque ou final fatal. Algo confuso é designado para fazer você perder o seu caminho. Um labirinto serve a um objetivo oposto: é designado para ajudar você a achar seu caminho. Encorajando você a caminhar sem pensar sobre qual o próximo passo, ele pode ajudar você a ser calmo, ajudar sua mente a escapar do alvoroço cotidiano e a relaxar”. Pensei comigo que esse labirinto tinha um casamento simbólico perfeito com a idéia da igreja católica: dê-me sua mente, coração e (por que não?) seus bens, que você poderá se libertar da agonia diária de encontrar seus próprios caminhos…      

Anyway, interpretações ideológicas à parte, o labirinto é lindo e os símbolos que ele carrega consigo também são muito interessantes.   

Abaixo, mais fotos dessa linda catedral.      

Bom passeio!

 

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De São Paulo a Norwich

Este post é um pouco longo. Mas, a viagem foi composta de várias etapas, as quais são narradas abaixo. Desde o embarque em São Paulo até a chegada em minha hospedagem, levei quase 24 horas e tomei meu primeiro “couro” no inglês.

Primeiro, sobre a viagem:

Meu vôo saiu de Guarulhos às 23h40 da última sexta-feira (23), sem atrasos. Voei TAM e me surpreendi positivamente: em cada poltrona tínhamos um painel de controle próprio, onde podíamos selecionar de filmes a envio de e-mail e SMS. Mesmo a classe econômica sendo algo sem muita variação, este vôo foi bem satisfatório.

Minha poltrona era a 28K (de Keila!), num conjunto de três – K, L e M. Sortuda que sou, o passageiro que sentaria ao meu lado, na poltrona L, faltou. Ou seja: dei uma esticadinha de corpo na poltrona vazia e dormi por várias horas. Na poltrona M, um senhorzinho tinha uma dificuldade enorme de entender a lógica daquele painel. Dei uns pitacos a ele porque sou solidária, mostrando como funcionava o menu e onde deveria ser encaixado o fone de ouvido.

Em vários momentos, tivemos turbulência, o que me fez pensar muito sobre a morte. Quando chegamos a Londres, me senti feliz por continuar viva e não causar pesar naqueles que amo com um falecimento repentino.

No aeroporto

Chegando no aeroporto de Heathrow, em Londres, às 15h, hora local, era hora de passar pela imigração e por aquele procedimento padrão: mostrar passaporte, polícia checar suas informações e fazer um pequeno interrogatório. Era uma fila grande. Fomos divididos, naturalmente, entre pobres e ricos: membros da Comunidade Europeia de um lado. O resto, do outro. Uma espanhola, grossa que só ela, foi bem estúpida comigo, mas, vou poupar os leitores deste detalhe sórdido. Só adianto que ela foi chamada pelo agente mais ríspido para apresentar seu passaporte. Sinto-me vingada.

Ao olhar a atuação dos agentes, fui emanando vibrações positivas para ser chamada por uma das mulheres, que pareciam ser bem amáveis. Vi uma garota ser entrevistada durante minutos a fio por um agente bonachão, que ficava sempre com um riso esgueirado na boca. Não fosse um local sério, posso jurar que ele estava constrangendo a moça propositalmente. Dois indianos foram postos num banquinho – descobri mais tarde que suas bagagens precisariam ser revistadas.

Bem, chegou a minha vez e, surpresa, fui enviada ao agente bonachão. Ela tinha cerca de 30 anos, rabo de cavalo e parecia estar brincando, o que me deixava mais nervosa. Corrigia meu inglês, falava “não é assim que se fala”, e tal. Pediu para ver a minha carta da escola, me fez algumas perguntas como: “quanto tempo você vai ficar aqui?”; “por que quer estudar inglês?”; “você tem dinheiro para se manter aqui?”; “é permitido a você trabalhar? Quantas horas?”. Depois de eu responder a essas questões, ele deu um suspiro profundo e carimbou meu passaporte. Eu havia, portanto, passado pelo temido aeroporto de Heathrow! Esse processo levou cerca de uma hora e meia. 

Dica: estudantes do Brasil que tirarem visto levem todos os documentos apresentados para o Consulado. Na imigração, eles podem checar tudo de novo.

Liberada que fui, passei por um setor, onde vi as malas da indiana, do banquinho, serem revistadas.

Do aeroporto a Norwich – um longo caminho

A viagem de Londres a Norwich foi um pouco longa – e cara, infelizmente. Precisei pegar dois metrôs e um trem para chegar à cidade de destino.

Eu nunca havia andado de metrô antes e nunca havia pedido e recebido informações em inglês. Mas, foi uma experiência muito legal! Ao final, me senti alguém capaz e independente. Neste meio tempo, curei definitivamente meu medo de escada rolante, já que tive que descer três lances, com três malas, para ter acesso ao terminal do metrô dentro do aeroporto.

No caminho da escada ao terminal de metrô, não encontrei nenhum depósito de lixo. Creio que seja uma medida de segurança, para que estes locais não sejam usados como esconderijo para bombas.

Peguei o Heathrow Express até a estação Paddington. Lá, acessibilidade zero, contei com a ajuda de ingleses simpatissíssimos, que me ajudaram com as malas para descer e subir escadas – não há rampas! No Terminal 16, peguei outro metrô para a Liverpool Street Station, de onde partem trens a cada meia hora para o leste inglês. A viagem a Norwich durou cerca de 2 horas.

No caminho, uma paisagem bonita, com árvores ainda secas, retrato de uma primavera que não chegou totalmente. Com o dia mais longo, o sol deu as caras até às 19h30, o que me permitiu fazer uma pequena filmagem, que será postada aqui ainda nesta semana.

Conforme o sol foi baixando, o frio tomou conta do ambiente. A meia que coloquei na frasqueira de viagem foi definitiva para que eu não congelasse por inteira.

 Já na cidade, fomos “recepcionados” por alguns garotos bêbados de alguma torcida misteriosa que, empunhando Heinekens, cantavam e gritavam algo incompreensível, rs.

 Chegada na host family – uma surpresa agradável

Ao chegar na casa de Mrs Sheil me surpreendi ao ver que ela não é nenhuma senhorinha solitária, como havia pensado. Ao contrário: aparenta ter quarenta e poucos anos, é bonita, toda sorridente e calorosa. Me ordenou que deixasse as malas ali mesmo, no corredor, enquanto seu filho, Reddan, quase da minha idade, também veio me recepcionar. Mal entrei na casa e já fui levada à mesa, onde conheci os demais presentes, que bebiam animados depois do jantar.

Reddan saiu com os amigos e Sheil fez um “típico” jantar para mim: pão tostado com feijão enlatado e bacon. E só.

Subi, guardei as malas e dormi até às 13h do dia seguinte.

E o primeiro passo é… voar, voar, subir, subir!

Qual a primeira etapa em um projeto de intercâmbio cultural? Antes de começar uma viagem, é preciso definir o destino, obviamente. É aquela velha frase do gato da Alice (e não de Shakespeare, ok? ): “se você não sabe aonde está indo, qualquer lugar serve”. E não é que é verdade? Bem, eu não queria qualquer lugar! Por isso, minha busca começou do seguinte modo:

Fui atrás de agências que ofereciam cursos na Inglaterra. Várias me apresentaram preços bem altos, cursos de 3 mil libras, um verdadeiro roubo. Percebi que era hora de conversar com amigos intercambistas e saber de suas experiências. Afinal, o que seria melhor? Fazer todo o processo sozinha ou pedir ajuda aos universitários? Foi aí que cheguei na Roda Mundo, uma agência de intercâmbio de São Paulo.

Após solicitar orçamento para cursos de inglês na Inglaterra, recebi várias opções referentes a algumas cidades naquele país: Londres, Brigthon, Bourmemouth, Birmingham e, finalmente, Norwich!

Eu sempre quis Londres, desde sempre e para sempre. Mas, alguns fatores me fizeram ponderar esse desejo: morar numa das cidades mais caras do mundo, numa das capitais mundiais? Quais seriam os benefícios? Claro, estar em contato com um universo multicultural, ter acesso a “N” programas artísticos-etílicos, poder fazer cursos diversos, enfim: estar num dos centros da cultura ocidental. Por outro lado: o custo de viver tudo isso.

A metáfora é: morar em SP é muito legal se você está na Vila Mariana, Madalena, na Avenida Paulista. Mas, se você morar na Penha ou Vila Brasillândia, a coisa fica mais difícil. Morar em Londres nas Zonas 1 e 2 é fantástico! Mas, qual o custo disso? Eu sei qual é. E não é barato. Por isso, resolvi buscar um plano B! Foi quando conheci Norwich. Abaixo, algumas fotos da cidade:

Norwich é conhecida como a capital do leste inglês. Possui cerca de 130 mil habitantes e, embora o seu curso seja duas vezes mais caro que o de Londres, a hospedagem é mais barata, poderei ir à pé à minha escola e a muitos outros pontos turísticos. Embora seja uma cidade moderna, possui diversas construções da época medieval. Foi habitada pelos celtas, invadida pelos romanos, vikings e ocupada pelos normandos. Quase sinônimo de cosmopolita! No século XI, foi a segunda cidade mais importante do reino, atrás apenas de Londres. É a que mais possui catedrais per capita em toda a Europa, contabilizando 31 igrejas, da católica à anglicana, e o seu principal castelo é um dos mais famosos da Inglaterra. Para alguém que sonha em ser uma “castelã medieval” nada soaria tão fascinante.

Além disso, a pequena cidade fica bem próxima a Cambridge, onde fica a Universidade de Cambridge, local onde foi lecionada a primeira disciplina em bem-estar animal num curso de veterinária. Em Oxford, a cerca de três horas de Norwich, foi montada a primeira fazenda-modelo em bem-estar animal. Este, aliás, é o tema do meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Obviamente, farei uma visita singela a estas instituições e a outras do Reino Unido. Sonhar não me custam muitas libras.

Bom, já sei para onde estou indo. E agora, como viabilizar tudo isso? No próximo post, informações de como se inscrever num curso e organizar a documentação necessária para estudar ao Reino Unido.