Ao longo do rio Wensum

“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos
Quero ver crescer nossa voz no que falta sonhar…”
(Beto Guedes)

Começou setembro, acabou agosto, o mês que não deveria existir. Todas as más notícias vêm no mês do agouro. Quem não se lembra da morte de Getúlio romanceada num livro de Rubem Fonseca chamado… Agosto.

Para iniciar um novo mês, é preciso:

  1. Entrar numa igreja fofa.
  2. Comprar um livro sobre as 32 igrejas medievais de Norwich.
  3. Visitá-las.
  4. Andar por ruas ainda não conhecidas.
  5. Acreditar que o sol vai voltar, sempre.

Assim comecei setembro. E, para saudar o novo mês, fiz uma caminhada pelas margens do rio Wensum, acompanhada de minha colega Chiara.

Wensum, como todo rio de uma cidade medieval, foi o coração de Norwich por séculos. Serviu para transportar mercadorias, foi palco de invasões e foi por ele que as pedras trazidas da Normandia, utilizadas na construção da catedral e do castelo, foram transportadas.

Wensum, hoje.

Hoje, ele é um dos 16 rios mais importantes do país, incluso no Área Especial de Conservação Europeia, e uma das marcas registradas de Norfolk.

Ao longo de sua margem, há o Wensum River Parkway. Que lindo! Trilhas e pequenos bosques são muito fotogênicos.

Andando, tromba-se com uma ponte charmosa, uma torre medieval, um canal. Bancos de madeira úmidos sussurram convites: venha ler um livro. Debaixo de uma árvore, outro banquinho, com o sol morno da tarde. Vontade de virar lagartixa e ficar estirada lá. Mas o sol some em segundos. É preciso seguir!

Ao lado, sempre a catedral. Mais a frente, à esquerda, o pub mais bonito e mais antigo de Norwich: Adam and Eve. Documentos apontam que sua existência remonta ao século XIII, quando um dos operários que trabalhava na catedral teve seus honorários pagos no pub em pão e cerveja. São 761 anos servindo pints!

Preservando muito de suas características originais, ele parece a casa de uma bruxinha, é coberto por flores. Para matar a sede, pedimos meio pint de cida, sempre refrescante.

Às 18h, o sol se foi. Era hora de voltar para casa.

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Eu conheci um lorde ali parado no jardim

Numa tarde ensolarada de sexta-feira, com um sol morno muito carinhoso, estive numa pequena festa no jardim de um lorde, daqueles que A rainha pôs a espada no ombro três vezes.

A festa aconteceu no dia 21 de maio, quando o tempo deu uma trégua e o sol apareceu, elevando as temperaturas para além dos 20ºC. Minha host mother, Sheil, me convidou para o encontro, cujo objetivo era arrecadar fundos para a caridade pela venda de livros, bolos, plantas e vinho. Sheil era a responsável pela venda dos vinhos e lá fui eu ajudá-la em troca de muitas taças.

O casal ilustre que nos recepcionava era David e Rosie, Sir e Madam, respectivamente. David, o Lorde, estava numa camiseta azul e numa bermuda cor de creme. Professor de Cambridge, ele é sorridente, parece ser gente como a gente. Rosie, sua esposa, vestia um longo avental. Poderia ser uma dessas donas de casa amáveis que cuidam dos jardins em qualquer filme britânico.

É curioso pensar que eles ainda têm Lordes neste país. E, que fique claro: eles não são (ainda) peças decorativas de uma monarquia cambaleante, mas figuras com certa representatividade política. Dá pra acreditar? Nobres e fidalgos no poder, em pleno ano de 2010!

Há até uma Câmara dos Lordes, que é uma das casas do Parlamento (a segunda é a Câmara dos Comuns, cujos representantes são eleitos pelo voto, democraticamente). Esssa Câmara é composta por nobres de nascença, lordes nomeados a título vitalício pela Rainha (em recompensa de serviços prestados à nação), e bispos. O Partido Trabalhista, claro, quer extinguir a Casa dos nobres, mas me parece que os ingleses se orgulham dessa coisa de monarquia e “pares do reino”.

Voltando à festa: o jardim de Rosie e David era bem dividido: nas laterais, estavam as flores, margaridinhas e tulipas. Ao meio, um gramado amplo, e, quase ao fundo, uma árvore grande dava abrigo para a lojinha improvisada de livros. No canto esquerdo, depois da árvore, uma pequena horta com várias hortaliças, o orgulho de Rosie. Próximo das flores na lateral, estavam os responsáveis pela venda dos vasinhos de plantas, que iam de temperos a mudas de flores. Simples, sem nenhum elemento que apontasse luxo ou riqueza, o jardim tinha aquela aura de “autônomo”, que todos os jardins daqui têm.

Num deck no segundo andar, uma banda, com repertório do leste europeu, deu clima à festa, com um violoncelo poderoso, que música-sim, música-não fazia a sua parte.

Enquanto isso, Sheil estava sentada em nossa banquinha de bebidas. Éramos responsáveis pela venda de vinhos tinto e branco, das cervejas e do suco caseiro, feito das uvas que floresceram no verão passado, ali mesmo naquele jardim. A videira, que deu tais frutos, estava bem acima de nós, testemunhando os “hums”, “hãm” que cada um fazia quando tomava a concentrado bebida.

Depois de passear pelo lindo jardim, fui propor minha modesta ajuda. Para tomar nota: na Inglaterra, não é permitido vender bebida alcoólica sem licença. Então, cada um que comprava um drink alcoólico recebia um tíquete. A estratégia é a seguinte: se um fiscal baixasse ali, o argumento seria que o produto vendido era o tíquete, e o vinho, apenas um brinde da casa.

A tarde foi caindo e era bonito ver todo mundo banhado por aquela luz de pôr-do-sol, com taças numa mão, vasinhos de flores em outra. Enquanto ia admirando a cena, também ia treinando meu inglês: contar as moedinhas, aprender a dar o troco (o money…), compreender diferentes sotaques, ser apresentada por Sheil para cada um que comprava uma taça de vinho e depois ter que lembrar o nome de cada um deles, a perigo de Sheil ficar desapontada comigo. Foi bom para o inglês, bom para exercitar a memória.

No fim da festa, minha host mother veio me mostrar uma planta, que parecia um pé de couve. Eu fiquei toda esperançosa para o jantar, porque eu AMO couve. Mas, ela logo me explicou que de couve aquilo não tinha nada, que do caule se fazia uma sobremesa muito famosa. Fiquei pensando na sobremesa que se é feita com o caule de uma planta que é a cara de um pé de couve, e não me animei muito. Mas, tive que provar depois.

De volta para a casa, fiquei sentindo uma coisa boa na alma, daquelas que a gente sente quando dá de cara com a calma.

Credito: O titulo desse post foi sugestao de Ticiane Toledo        . Ela adora quebrar ideias tradicionais. Ela adora cultura pop.

O que acontece quando A rainha vem para Norwich?

De fato, nada.

Mas, é minha obrigação registrar que ver A Rainha da Inglaterra é um fato extremamente excitante para quem chegou neste país há pouco mais de uma semana!

Elizabeth II e o Duque de Edimburgo, Príncipe Philip, estiveram em Norwich na última terça-feira (4), numa rápida passagem pela cidade para inaugurar duas novas alas nas partes oeste e sul da Catedral de Norwich.

A Catedral é um importante monumento da Inglaterra, construído há 900 anos, pelos normandos, com pedras vindas da própria Normandia. As alas inauguradas pel’A rainha nesta terça-feira são o maior projeto de construção realizado na Catedral desde o século XI, de acordo com informações da BBC de Norfolk.

Preparativos

Na terça-feira, acordei cedo e fui até a escola avisar que não poderia ficar para a aula porque, afinal, A rainha estava vindo para cá! Ao declarar isso, as pessoas se mostraram extremamente alegres e algumas ainda emitiram abafados gritinhos de animação. Essa é a primeira vez que Elizabeth e o príncipe Philip aparecem em Norwich nos últimos oito anos!

Dado o aviso, rumei para a Catedral utilizando um mapa, que consegui interpretar com inédita destreza! No caminho, nenhum movimento anormal.

A visita estava marcada para acontecer às 10h30. Quando cheguei, meia hora antes, poucas pessoas aguardavam Sua Majestade atrás de uma cordinha de isolamento. Postei-me ao lado de uma inglesa que aparentava ter seus trinta e poucos anos, com sua filhinha, Lucy, e que era uma das pessoas mais empolgadas. Toda hora relembrava sua filha do quanto era excitante a vinda d’A rainha. Lucy aguardava, impaciente, sob o frio que congelava a todos.

Na plateia, que ia crescendo pouco a pouco, pessoas de todas as idades, com destaque para o grande número de simpáticas senhorinhas.

Desfilando entre as duas alas de expectadores, mulheres com elegantes vestidos portavam chapéus cinematográficos. Essas mulheres fazem parte da high society, são parte integrante das cerimônias de recepção e são distinguidas pelo tal ornamento.

Quase 11h, os sinos da Catedral começaram a tocar. Foi a deixa para que as mulheres de chapéu se postassem na porta da igreja, para que todos balançassem suas bandeirinhas inglesas e para que a mãe de Lucy começasse a dar gritinhos de animação. Pensei como deve ter sido no passado, antes de inventarem o celular: como saberiam a hora da chegada d’A rainha e de anunciá-la?

Em questão de segundos, dois carros da marca Land Rover entraram pelo jardim da Catedral acompanhando Elizabeth 2ª em seu Rolls Royce. Ela deu um tchauzinho anêmico para a excitada platéia e parou bem lá na frente, quase na porta da igreja.

Fiquei bem decepcionada! Achei que ela fosse caminhar entre nós, entregar flores para Lucy, mirar nos olhos de cada um de seus súditos! Que nada. Os Land Rover, muito grosseiramente, ainda pararam bem em frente da entrada da Catedral, praticamente bloqueando a visão do chacoalhar de mãos entre A rainha e as mulheres de chapéu.

O bispo veio recepcioná-la, trocaram um papinho e entraram. O prefeito e Lorde (imagina! Eles têm Lordes aqui!) Evelyn Collishaw também estava presente para dar boas vindas à Elizabeth.

Eu queria muito ainda esperar acabar a missa para acompanhar a comitiva real por alguns lugares da cidade, mas o frio me fez desistir da idéia de ficar postada ali por uma hora, só para conseguir uma fotinha a mais para mostrar aos amigos.

Tão logo Sua Majestade adentrou a Catedral, a multidão se dissipou. Corri para o Fórum (o último prédio inaugurado por ela em Norwich, em 2002!), onde está a biblioteca municipal, e tomei um chá para aquecer a alma e desengruvinhar os dedos.