Entrevistas? Só depois do discurso da rainha

Contato um setor do governo inglês pedindo uma entrevista. Eles retornam a ligação:

– “Sim, claro, podemos te ajudar. Mas precisamos esperar”, eles informam.

– “Esperar o que?”

– “O discurso da rainha”.

Pois é. Depois das eleições, a rainha vai na Casa dos Lordes e dá às boas vindas ao novo Parlamento. E só então os órgãos públicos podem fazer anúncios, o que inclui dar entrevistas.

A tal boas vindas acontece assim: a rainha sai lá de Buckingham Palace numa procissão até Westminster, onde fica a sede do Parlamento. Há todo um código de vestimenta: ela usa a coroa do estado imperial e o robe do Estado.

Ela faz um trajeto rígido, passando por salas específicas. Quando chega na câmara da Casa dos Lordes, o oficial da Casa vai então chamar os Comuns – ou seja, os políticos eleitos pelo povo -mas os Comuns fecham a porta na cara do oficial!

Soa dramático, mas é tudo coreografia. A porta na cara é reminiscente da Guerra Civil inglesa, no século XVII, e simboliza a independência do Parlamento, eleito pelo povo, da monarquia.

O fato é que eu precisarei esperar até o fim de maio, quando a rainha terá feito seu discurso – que, na verdade, é escrito pelo governo -, para ter a entrevista que preciso do tal órgão do governo inglês.

Eu ficaria chocada, não fosse o fato de, na minha última prova de jornalismo, haver uma seção inteira sobre que perguntas eu faria para a duquesa Kate… numa entrevista sobre a princesa recém-nascida.

O que acontece quando A rainha vem para Norwich?

De fato, nada.

Mas, é minha obrigação registrar que ver A Rainha da Inglaterra é um fato extremamente excitante para quem chegou neste país há pouco mais de uma semana!

Elizabeth II e o Duque de Edimburgo, Príncipe Philip, estiveram em Norwich na última terça-feira (4), numa rápida passagem pela cidade para inaugurar duas novas alas nas partes oeste e sul da Catedral de Norwich.

A Catedral é um importante monumento da Inglaterra, construído há 900 anos, pelos normandos, com pedras vindas da própria Normandia. As alas inauguradas pel’A rainha nesta terça-feira são o maior projeto de construção realizado na Catedral desde o século XI, de acordo com informações da BBC de Norfolk.

Preparativos

Na terça-feira, acordei cedo e fui até a escola avisar que não poderia ficar para a aula porque, afinal, A rainha estava vindo para cá! Ao declarar isso, as pessoas se mostraram extremamente alegres e algumas ainda emitiram abafados gritinhos de animação. Essa é a primeira vez que Elizabeth e o príncipe Philip aparecem em Norwich nos últimos oito anos!

Dado o aviso, rumei para a Catedral utilizando um mapa, que consegui interpretar com inédita destreza! No caminho, nenhum movimento anormal.

A visita estava marcada para acontecer às 10h30. Quando cheguei, meia hora antes, poucas pessoas aguardavam Sua Majestade atrás de uma cordinha de isolamento. Postei-me ao lado de uma inglesa que aparentava ter seus trinta e poucos anos, com sua filhinha, Lucy, e que era uma das pessoas mais empolgadas. Toda hora relembrava sua filha do quanto era excitante a vinda d’A rainha. Lucy aguardava, impaciente, sob o frio que congelava a todos.

Na plateia, que ia crescendo pouco a pouco, pessoas de todas as idades, com destaque para o grande número de simpáticas senhorinhas.

Desfilando entre as duas alas de expectadores, mulheres com elegantes vestidos portavam chapéus cinematográficos. Essas mulheres fazem parte da high society, são parte integrante das cerimônias de recepção e são distinguidas pelo tal ornamento.

Quase 11h, os sinos da Catedral começaram a tocar. Foi a deixa para que as mulheres de chapéu se postassem na porta da igreja, para que todos balançassem suas bandeirinhas inglesas e para que a mãe de Lucy começasse a dar gritinhos de animação. Pensei como deve ter sido no passado, antes de inventarem o celular: como saberiam a hora da chegada d’A rainha e de anunciá-la?

Em questão de segundos, dois carros da marca Land Rover entraram pelo jardim da Catedral acompanhando Elizabeth 2ª em seu Rolls Royce. Ela deu um tchauzinho anêmico para a excitada platéia e parou bem lá na frente, quase na porta da igreja.

Fiquei bem decepcionada! Achei que ela fosse caminhar entre nós, entregar flores para Lucy, mirar nos olhos de cada um de seus súditos! Que nada. Os Land Rover, muito grosseiramente, ainda pararam bem em frente da entrada da Catedral, praticamente bloqueando a visão do chacoalhar de mãos entre A rainha e as mulheres de chapéu.

O bispo veio recepcioná-la, trocaram um papinho e entraram. O prefeito e Lorde (imagina! Eles têm Lordes aqui!) Evelyn Collishaw também estava presente para dar boas vindas à Elizabeth.

Eu queria muito ainda esperar acabar a missa para acompanhar a comitiva real por alguns lugares da cidade, mas o frio me fez desistir da idéia de ficar postada ali por uma hora, só para conseguir uma fotinha a mais para mostrar aos amigos.

Tão logo Sua Majestade adentrou a Catedral, a multidão se dissipou. Corri para o Fórum (o último prédio inaugurado por ela em Norwich, em 2002!), onde está a biblioteca municipal, e tomei um chá para aquecer a alma e desengruvinhar os dedos.