Encontros e despedidas

“E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega 
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro 
É também de despedida
A plataforma dessa estação 
É
 a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida”

(M. Nascimento)

O verão começou. Com ele, novos estudantes vêm para a ICS Language e é sob sua brisa morna que muitos se vão.

Desde que me aportei aqui, conheci muitas pessoas. E vou me dando conta agora que todas irão embora mais cedo que eu. Porque eu cheguei depois de todas elas.

Primeiro, foi Cristina. Dizer “tchau” para ela não foi tão difícil, assim como não o foi para Silvia. Quando nos despedimos de Valentina, algo começou a mudar. Nossa sala não era mais a mesma sem ela.

Na última semana, foi a vez de despedirmos-nos de Ingrid. Quantas saudades ela e suas polêmicas posturas vão deixar! A adepta mais convicta do “achado-não-é-roubado” e para quem tudo que é novo é perigoso foi também a pessoa com quem criei mais empatia.

Com Ingrid de volta à Barcelona, o fantasma da solidão volta a me assombrar. Porque aqui a gente parece mesmo os tolinhos do Big Brother Brasil e suas frases feitas. Não raro nos vemos dizendo bordões como: “é tão difícil ficar longe de casa” ou “aqui, nos apegamos mais a cada um porque quem a gente ama está longe”.

Longe de tudo e de todos os signos que nos dão idéia de casa, vamos entendendo o verdadeiro significado do à flor da pele, dia-a-dia. Tudo emociona. Quase tudo é motivo para comemorar ou para achar que a morte chegou e não há mais saída.

Dia desses, quando fui me despedir de uma aluna que ficou aqui por duas semanas, esbocei um choro curto. Ela nem estava na minha sala. Nem o nome dela eu sabia. Mas, ela tinha um sorriso lindo, e era uma pessoa legal, com quem eu tinha criado um pequeno relacionamento, não mais do que dizer “oi”.

Na última semana, uma espanhola veio falar comigo. Eu não sabia seu nome também. Ela me contou como seu dia tinha sido difícil, já que tinha pensado sobre seu país, família, amigos. Ficou com os olhos úmidos. Deu-me um abraço, agradeceu por estar com ela. Busquei ouvi-la porque aqui somos todos carentes em potencial.

Em compensação, novos estudantes chegaram. É um exercício que a gente faz ao criar laços, desfazê-los e tentar construir novos. A vida nunca fica monótona. Passamos a viver as metáforas filosóficas, de que a vida é um rio, e a experimentar criações poéticas, de que a vida passa e não fica, nada deixa e nunca regressa.